PF encontra anotações de Heleno sobre suposta espionagem a político do PT e preocupação eleitoral
Registros indicam monitoramento de figuras ligadas ao PT e preocupações relacionadas às eleições de 2022

A Polícia Federal apreendeu uma agenda do general Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no governo Jair Bolsonaro (PL), com registros que indicam monitoramento de figuras ligadas ao PT e preocupações relacionadas às eleições de 2022.
Entre as anotações às quais a PF teve acesso, o ex-deputado federal Vicente Cândido (PT-SP) é citado como “o novo Vaccari”, em referência a João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do partido preso em 2015 na Operação Lava Jato. Um trecho manuscrito menciona: “Falar com PR. Vicente Cândido é o novo Vaccari. ABIN está de olho nele”.
Na mesma página aparecem os nomes do ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e do então deputado federal Alexandre Padilha, além das expressões “bunker em São Paulo” e “braço em Brasília”, sem detalhes adicionais. O texto destaca que o tema deveria ser despachado com o presidente da República.
Outra anotação afirma: “Aras se aproximou da Abin”, referência ao então procurador-geral da República, Augusto Aras. Logo abaixo lê-se: “A PF preparando uma sacanagem grande”, sem esclarecimentos sobre o contexto.
Preocupação com o pleito
Em páginas posteriores, a agenda apresenta fluxogramas sobre riscos à campanha de Jair Bolsonaro, como “relação conflituosa” e “aumento da tensão social”. Há ainda alerta para possível atuação no Brasil de grupos de manifestantes chilenos.
Um tópico intitulado “Observação das Eleições” lista pessoas e entidades descritas como ligadas ao PT e “sem interesse que um amigo de Trump ganhe as eleições no Brasil”. Entre elas estão o Washington Brazil Office (WBO), os coletivos Juízes para Democracia, Transparência Eleitoral e o Grupo de Puebla.
Decisão da PF e ausência de indiciamento
Apesar de ser o superior hierárquico da Agência Brasileira de Inteligência, a PF optou por não indiciar Augusto Heleno no inquérito que apura uso do órgão para fins pessoais e políticos durante o governo Bolsonaro.
A defesa do ex-ministro foi procurada, mas não se manifestou até a publicação desta reportagem. Os demais citados também não responderam.
Processo por tentativa de golpe
Paralelamente, Heleno é réu no Supremo Tribunal Federal ao lado de outras sete pessoas classificadas pela Procuradoria-Geral da República como núcleo central da tentativa de golpe contra o resultado das eleições de 2022. Segundo a PGR, ele auxiliou Bolsonaro na difusão de mensagens contra a segurança do sistema eleitoral e possuía documentos sugerindo que o então presidente desobedecesse decisões do Supremo.
Os autos indicam que o general, em conjunto com o ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem, teria redigido orientações para prender em flagrante autoridades que executassem ordens judiciais consideradas “manifestamente ilegais” pelo grupo. A PGR sustenta que Heleno mantinha “pleno domínio” das ações da chamada “Abin paralela”.
Pelos fatos investigados, ele responde por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado.
Não há data nas anotações apreendidas, o que impede determinar em que momento do governo Bolsonaro os registros foram feitos.