‘A tomada Chernobyl pela Rússia é a tomada de um símbolo’, diz pesquisador da USP

Especialista em matéria nuclear diz que não há uso para o que existe hoje na região
Cientista Político diz que tomada é estratégia geopolítica
Professor diz que maior preocupação não é com Chernobyl, mas outras usinas
Militares russos invadiram nesta quinta-feira (24) a cidade ucraniana de Chernobyl, conhecida pelo desastre nuclear de 1986, o maior da história. A usina, localizada a 130 km a norte de Kiev, foi tomada durante o primeiro dia de bombardeios contra a Ucrânia.
A presença russa no local tem causado grandes preocupações internacionais. A agência nuclear da Ucrânia chegou a divulgar um alerta informando que houve aumento dos níveis de radiação no local.
O que não fica claro, no entanto, é por que a tomada da cidade – que, 36 anos depois, segue deserta e é considerada uma “zona de exclusão” – é importante para os russos.
O professor Pedro Costa Jr., pesquisador do Departamento de Ciências Políticas (DCP) da USP, explica que o Acidente Nuclear de Chernobyl, em 26 de abril daquele ano, quando uma das usinas explodiu durante testes, marcou o início da derrocada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
Dessa forma, avalia o professor, “a tomada russa de Chernobyl é a tomada de um signo, sem dúvida nenhuma”.
“O Putin tem em mente que o pior acontecimento do século XX foi a queda da União Soviética”, pontua o pesquisador. “Considerando que o século XX teve duas Guerras Mundiais e o Holocausto”, completa.
O acidente nuclear ocorreu na Usina V. I. Lenin, localizada na cidade de Pripyat, a cerca de 20 km de Chernobyl. Toda região precisou ser evacuada, mas a contaminação, causada pelo material radioativo espalhado, matou milhares de pessoas.
“Então retomar Chernobyl, que é um símbolo do desastre, é de importância para o Kremlin”, afirma Costa. “Isso com certeza está na mente deles. A diplomacia russa é muito qualificada, eles pensam na frente.”