
BC não tem pressa para cortar juros, conclui a economista-chefe para a América Latina do BNP Paribas, Fernanda Guardado, ao analisar a ata do Comitê de Política Monetária (Copom). O documento, que justificou a manutenção da Selic em 15% ao ano, indica que o Banco Central pretende manter o nível atual por um período “bastante prolongado”.
Em entrevista ao programa Capital Insights, Guardado — que já integrou a diretoria da instituição monetária — afirmou que o BC “passou a impressão de que o período de testes começa agora” e rechaçou expectativas de corte ainda em 2025. Para a economista, a autoridade monetária quer verificar se a taxa de 15% é suficiente para conduzir a inflação à meta de 3%.
BC não tem pressa para cortar juros, aponta BNP Paribas
Guardado destacou que fatores pontuais, como a valorização do real de R$ 6,10 para R$ 5,30 desde o início do ano, ajudaram a reduzir a projeção de inflação de 5,60% para 4,80%. No entanto, a pressão do setor de serviços permanece elevada, reforçando a cautela da política monetária.
Segundo ela, a comunicação recente do presidente Roberto Campos Neto e dos diretores do BC reforça o compromisso com a convergência da inflação. A economista observa que “não houve qualquer sinal concreto de urgência para iniciar cortes antes de evidências mais robustas”.
A especialista também relacionou a manutenção dos juros ao cenário fiscal. Na sua avaliação, o desarranjo das contas públicas eleva o prêmio de risco exigido pelos investidores, o que mantém a taxa básica em patamar elevado. Guardado lembra que o Brasil deve encerrar 2024 com dívida bruta próxima de 80% do PIB, nível 20 pontos acima da média de emergentes, conforme dados do Fundo Monetário Internacional.
Perguntada sobre propostas de limitar a dívida a 80% do PIB, a ex-diretora classificou a ideia como “difícil de executar” e comparou o mecanismo ao teto de endividamento dos Estados Unidos, frequentemente postergado pelo Congresso.
No curto prazo, a projeção do BNP Paribas é de crescimento econômico mais moderado em 2026, com expansão de 1,6% e inflação amparada pela estabilidade cambial e pela política monetária restritiva. A incerteza, porém, tende a aumentar com o calendário eleitoral e as sinalizações dos candidatos sobre o ajuste fiscal pós-2027.
Para Guardado, “o ajuste é inescapável”. O banco estima que o superávit necessário para estabilizar a dívida gira entre 2,5% e 3% do PIB, contraste com o déficit esperado de 0,6% este ano. “Sem consenso político para cortar gastos e rever subsídios, o prêmio de risco sobe e prolonga juros altos”, concluiu.
Resumo: a ata do Copom reforça a estratégia de juros elevados por tempo prolongado, enquanto o quadro fiscal segue como principal obstáculo para reduções antecipadas.
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Crédito da imagem: Agência Brasil