A primeira edição do GOYAZ
Análise histórica: a força da imprensa no Brasil Imperial

A primeira edição do GOYAZ: em 17 de setembro de 1885, a imprensa brasileira ganhava um novo e importante protagonista: o jornal Goyaz. Seu primeiro exemplar, um documento histórico de sua época, reflete as complexas tensões e transformações do Brasil do século XIX, mostrando a atuação do jornal como uma voz ativa na política, na sociedade e na cultura.
A Primeira edição do GOYAZ



Um Marco Político e Liberal
A edição inaugural do Goyaz não se limitou a relatar a queda do gabinete liberal de Saraiva e a ascensão do novo ministério conservador do Barão de Cotegipe. O jornal assumiu um posicionamento claro, defendendo os ideais liberais e criticando a política imperial. Para o Goyaz, a mudança de governo não era uma simples troca, mas sim a prova do esgotamento de um sistema que precisava de renovação. O periódico se autodeclarou um “órgão liberal goiano”, buscando se firmar como uma voz de oposição e de crítica aos rumos do Império.
A Questão da Abolição: Uma Bandeira Central
A análise da primeira edição revela que a abolição da escravidão era uma pauta de grande relevância para o jornal. O Goyaz ecoou os discursos de figuras abolicionistas proeminentes, como Joaquim Nabuco e Leopoldo de Bulhões, e defendia que a causa da liberdade era a “verdadeira bandeira liberal”. Esse posicionamento ousado, em um país que ainda resistia à abolição, demonstra o papel progressista do jornal na sociedade da época, alinhando a imprensa de Goiás aos movimentos mais avançados do país.
Ciência, Economia e Cultura
Além da política, o Goyaz mostrou-se um agente de modernidade ao abordar temas científicos, como as pesquisas do Dr. Vieira de Mello sobre a febre amarela e as descobertas de Louis Pasteur. Essa preocupação em divulgar o conhecimento científico conectava Goiás aos debates globais.
A economia também era um tema central, com o jornal defendendo o potencial do fumo goiano como produto de exportação e a necessidade de diversificação agrícola. Por fim, a presença de poemas e textos literários na edição reforça a dupla função da imprensa no século XIX: ser um espaço para a política e para a arte, consolidando-se como um difusor cultural e intelectual.
Um Veículo para Poucos, Um Testemunho para Todos
As assinaturas caras do jornal indicam que o acesso era restrito a uma elite econômica e intelectual, como fazendeiros, políticos e letrados. No entanto, a importância histórica do Goyaz transcende seu público inicial. Ele foi um espelho do seu tempo, documentando as lutas, os debates e as aspirações de uma nação em transição.
De 12$000 a quase R$ 4 mil: quanto custava assinar o jornal Goyaz em 1885
Em 17 de setembro de 1885, circulava em Goiás a primeira edição do jornal Goyaz, órgão liberal que nasceu em meio a um turbilhão político e aos debates sobre a abolição da escravidão. Entre as páginas de editoriais inflamados, poesias e notícias científicas, uma informação chama a atenção: o preço da assinatura.
Naquela época, o leitor podia escolher entre quatro opções:
O que significavam os “mil réis”?
Fazendo a conversão para os valores atuais (2025), quando o grama do ouro vale em torno de R$ 330, temos:
O trabalhador comum ganhava, em média, 20$000 a 30$000 por mês (o equivalente a R$ 6.600 a R$ 9.900 de hoje). Ou seja: a assinatura anual do Goyaz consumia facilmente de 10% a 20% do salário mensal de um funcionário público ou profissional liberal.
Curiosidade:
Transcrição da Primeira Edição do Jornal GOYAZ — 17 de setembro de 1885
Situação Política
Está verificada a notícia, já esperada em vista das que nos vieram pelos correios anteriores, da queda da situação liberal e da consequente organização de um ministério conservador. Tendo o Sr. Saraiva, com boa razão, pedido sua exoneração do ministério a que presidia, foi convidado a organizar novo gabinete o Sr. Visconde de Paranaguá, que pediu dispensa.
Foi então chamado o Sr. Barão de Cotegipe, que organizou o ministério com este pessoal:
Ele, Barão de Cotegipe, presidente do Conselho e ministro dos Negócios Estrangeiros; [Barão] de Mamoré, Império; Senador Ribeiro da Luz, Justiça; Francisco Belisário, Fazenda; Alfredo Chaves, Marinha; Senador Junqueira, Guerra; Antônio Prado, Agricultura.
É claro que, com mais ou menos demora, dar-se-á a dissolução da Câmara e nova eleição.
Sobre a Retirada do Partido Liberal
Se a retirada do Partido Liberal (e grifamos a palavra, porque, em verdade, deu-se antes uma retirada do que uma queda) nada oferece de extraordinário, se não isto: o partido achou-se, na impossibilidade de se manter, forçado a abrir mão da posição que ocupava.
Não foi na questão vital do elemento servil que o partido liberal abriu ingresso aos conservadores; não, o partido já se achava de algum tempo para cá em decadência, aceitando por bem a derrota.
Havia, portanto, aí menos questão de partidos, de ideias ou de programa em luta e contradição, que uma simples mudança de posição. Ela se explica pelo retalhamento interno: o liberal renunciou ao poder e passou-o voluntariamente ao adversário.
Não tem outro sentido o afastamento do Sr. Saraiva. O partido liberal saiu, o conservador entrou.
Apresentação do “Goyaz”
Eis, finalmente, o Goyaz em poder do leitor.
O seu aparecimento, embora muito tempo anunciado e esperado, sofreu mais de um adiamento, por imposição das circunstâncias locais.
O transporte do material tipográfico, consistente em peças de grande volume e peso, contínuo, do Pará até Goiás, implicou um trabalho longo, excedendo em muito o prazo que havíamos calculado. Este foi o principal motivo da demora em imprimir o nosso primeiro número.
Depois surgiram novas dificuldades e contrariedades: os trabalhos de instalação da oficina, a insuficiência do prédio e a necessidade de alterar completamente sua divisão; a falta de oficiais para a construção de peças do maquinário indispensável ao serviço tipográfico (caixas, estantes, mesas fortes, bancas, etc.), que até hoje ainda não pudemos obter nas proporções que a oficina exige.
Satisfazendo a algumas dessas necessidades, suprindo outras e saltando por muitas, logramos afinal efetuar a publicação do órgão liberal goiano. Sendo, entretanto, forçados a dar-lhe proporções inferiores às que pode e deve em breve ter, logo que a oficina esteja aparelhada de todos os utensílios necessários.
Condições de assinatura:
Por ano, com selo: 12000 Por ano, sem selo: 10000
O ano se conta de 1º de setembro a 15 de setembro do ano seguinte. Nenhum número, pelo menos, por semana.
Os assinantes têm direito a imprimir gratuitamente anúncios, declarações e quaisquer escritos de seu interesse.
Reflexões Políticas
Os tempos mudam, e nós mudamos com eles.
Não há aqui somente uma sentença literária tornada provérbio; isto é fato. É a forma vulgar da permanência do movimento interno em relação ao homem, quer seja de evolução, quer de decadência: significa equilíbrio do nosso modo de ser com as incidências do meio.
Em política, sem detrimento do dever primordial de coerência quanto aos princípios e ideias capitais, o procedimento do homem público é dominado, sob pena de esterilidade, pelas indicações dos acontecimentos que se sucedem. Este é um fator instável, que nos obriga a modificar nossos desígnios últimos e nos subordina diretamente às vozes do instante.
Estas considerações explicam ao público porque a redação do Goyaz não terá sempre a mesma linguagem e a mesma atitude política que já nas gazetas anteriormente dirigiu.
As circunstâncias obrigam a modificar-se o aprumo nos princípios antes sustentados; já não há, hoje, profunda oposição com os adversários (os conservadores), nem com os dissidentes do liberalismo.
O Monitor Goiano, órgão do partido liberal em vias de formação, ainda embrionário, teve sua oportunidade e passou, legando à província certo grau de adiantamento político bastante apreciável. Reconhecemos, com dor de coração, que hoje vemos muitos companheiros de ontem tresmalhados, debaixo de outras bandeiras, e outros emigrando, deixando em nossas fileiras claros irreparáveis.
A província de Goiás, contudo, seguiu na obra de construção iniciada pelo movimento liberal.
Questão do Elemento Servil
Sabem todos que, havendo bloqueado o Sr. Saraiva com o projeto de 25 de Julho — sob o fundamento de que esse projeto feria a propriedade com a libertação imediata e incondicional dos sexagenários — foi chamado no governo o próprio Saraiva, e apresentou outro projeto mais brando, que, em vez de alargar, restringia ainda mais a libertação.
Não queremos entrar agora na questão: se o projeto antigo era melhor ou pior, mais ou menos adiantado do que o atualmente em discussão. A comparação entre os dois projetos só se faz com justiça tendo-se em vista a diversidade do contexto e das circunstâncias em que um e outro foram apresentados.
O projeto de 25 de Julho tinha uma feição avançada para a época, embora ainda tímida; o projeto de 12 de Maio, vindo depois de tanta luta e sacrifícios, nada adiantou, antes pareceu retrocesso.
Os espíritos dividem-se: uns chamam de especulativos aqueles que defendem o novo projeto; outros, de sonhadores os que exigem medidas radicais. Mas, em suma, temos amor às ideias que esposamos e desejamos vê-las realizadas.
Divergências à parte, não há de se perder de vista que hoje a bandeira liberal é a bandeira da abolição.
O partido abolicionista formou-se da dedicação de homens de todos os partidos do Império. A causa é maior do que as divisões partidárias.
É um erro, e péssimo sistema, o que o Partido Liberal tem seguido até aqui: pregar doutrinas e fazer programas pomposos, mas, uma vez no poder, esquecer os compromissos tomados. É tempo de reparar o erro do passado e tratar de derrubar uma instituição que nos degrada, cujo desaparecimento abrirá novos horizontes.
Reunião Liberal
Por incumbência dos chefes liberais desta capital, estamos autorizados a convidar todos os membros do partido para uma reunião geral, sábado às 7 horas da tarde, em casa do Exmo. Sr. Tenente-Coronel Jalado, a fim de deliberar-se em comum sobre interesses coletivos do partido e da causa pública.
Membros do Grupo Parlamentar Abolicionista
- Joaquim Nabuco — Rua Bella da Princeza n. 1
- Joaquim P. Salgado — Rua Marquez de Olinda n. 2
- Frederico Borges — Rua Silveira Martins n. 50
- Thomaz Pompeu — Royal Hotel, Rua Fresca n. 3
- Sampaio Dias — Rua do Ipiranga n. 4
- José Mariano — Rua Larga de S. Joaquim n. 108
- Adriano Pimentel — Rua da Passagem n. 103
- Bezerra Cavalcanti — Sta. Thereza, Rua Aprazível 13-B
- Leopoldo de Bulhões — Hotel Olinda
- Afonso Celso Junior — Rua do General Camaram 23
- Antônio Pinto — Rua do Mattoso n. 34
- Aristides Spinola — Rua das Trincheiras
Debates na Câmara
O Sr. Andrade Figueira: — Muito obrigado; V. Ex. tem direito perfeito à preferência.
O Sr. Leopoldo de Bulhões: — Pelo desejo que tenho de ouvir a S. Ex., e porque creio que as suas considerações projetarão muita luz sobre a questão que se debate.
Sr. Presidente, iniciarei o meu discurso procurando responder às observações que foram feitas pelo nobre deputado por Sergipe, o Sr. Olympio dos Campos.
A S. Ex., que representa aqui muito dignamente a teologia, afirmo que a solução teológica para a questão do elemento servil não pode ser de modo algum aceita; combina perfeitamente com a solução do governo e seus adeptos, mais ou menos metafísicos, que o Sr. Andrade Figueira batizou de especulativos.
Efetivamente, a metafísica e a teologia se congraçam na magna questão social do elemento servil; mas em tantos outros pontos são inimigos inconciliáveis.
O grupo abolicionista aceita neste debate, quando o projeto de 12 de Maio se despede de nós triunfante e quando o ilustre presidente do conselho quase finda sua carreira na Câmara. Foi reservado ao mais obscuro abolicionista desta bancada (não apoiados) dar o tiro de honra neste projeto, que procura tranquilizar a lavoura, mas ateia incêndio nos arraiais abolicionistas.
Debate Parlamentar sobre a Abolição
O Sr. Joaquim Nabuco: — Apoiado.
O Sr. Leopoldo de Bulhões: — … e esta divergência do partido, contrariando nossos hábitos, cria de alguma sorte embaraços ao governo do nosso partido. Foi, porém, o nobre presidente do Conselho quem nos abandonou.
S. Ex. baseou sua reforma em moldes conservadores, bandeou-se para os adversários da situação (apoiados e não apoiados), tem vivido com eles, tem com eles transigido em prejuízo da causa dos escravos (apoiados pelos abolicionistas). E o que é pior, procura fazer esta reforma ao sabor das classes conservadoras e opressoras da sociedade.
O Sr. Andrade Figueira: — Não apoiado. (Cruza-se apartes).
O Sr. Aristides Spinola: — Antes de qualquer manifestação hostil ao gabinete Saraiva, S. Ex. deu-nos aqui a patente de liberais indisciplinados. (Diversos apartes).
O Sr. Leopoldo de Bulhões: — Aproveitando o aparte do meu nobre amigo, deputado pela Bahia, que recordou as palavras do Sr. presidente do Conselho, pergunto: quem faltou à disciplina? Nós, abolicionistas, que seguimos os princípios da nossa escola política e queremos imprimir caráter liberal nesta reforma, que tanto pede honra ao partido, ou S. Ex., que procura fazê-la ao sabor dos adversários, transgredindo os princípios em cujo nome governa? (Apoiados).
O Sr. Joaquim Nabuco: — Que o homem público seja prático, realista, e não apenas sonhador.
A mocidade sonha, é certo, mas os sonhos da mocidade, se trazem dificuldades ao presente, são sempre em proveito do futuro. (Apoiados).
É preciso, porém, que eu diga a V. Ex. que a velhice raras vezes sonha também, e os sonhos da velhice podem comprometer o presente e prejudicar enormemente o futuro.
O Sr. Afonso Celso Junior: — Toda a utopia é um sonho, disse o poeta.
O Sr. Leopoldo de Bulhões: — Votar este projeto, acreditando que ele possa satisfazer as aspirações do país, é um sonho de velhice.
O Sr. Frederico Borges: — É uma espécie de pesadelo.
O Sr. Leopoldo de Bulhões: — Esta medida de transição não atinge ao fim a que se destina, e por isso muito bem fez o Sr. Andrade Figueira em qualificar de especulativos aqueles que a sustentam.
Lamentava, na posição do honrado presidente do Conselho, não se pôr ele à frente do seu partido para de alguma sorte dar uma solução ao problema servil que nos pudesse congregar, porque, senhores, a bandeira liberal hoje é a bandeira da abolição. (Apoiados).
Fecho dos Debates Parlamentares
O Sr. Aristides Spinola: — A glória do que houver de bom ficará para os conservadores; a responsabilidade do que houver de mau no projeto ficará para o Partido Liberal. Eis o resultado da política do gabinete.
O Sr. Leopoldo de Bulhões: — Noto, Sr. Presidente, que todos os oradores que têm tomado parte neste debate consideram assunto obrigatório a comparação entre os dois projetos de 25 de Julho e 12 de Maio.
Não posso deixar de tocar neste ponto, porque fui signatário do projeto de 25 de Julho, e não me arrependo de tê-lo sustentado dedicadamente. Orgulho-me de ter apoiado esse governo que abriu caminho e preparou o terreno para a reforma do estado servil.
O projeto de 25 de Julho valia pouco, mas era alguma coisa em 1884; o projeto de 12 de Maio, apresentado logo depois, após tantas lutas e sacrifícios, nada vale.
O Sr. Martinho Campos: — Seis meses depois, e parecia uma revolução retrocedida.
O Sr. Joaquim Nabuco: — É isso que é prático, é isso que é real, é isso que não é sonho.
A mocidade sonha, e sonha para o futuro; mas a velhice sonha também, e esses sonhos podem comprometer o presente e prejudicar o futuro.
O Sr. Frederico Borges: — Então o projeto não passa de um pesadelo.
O Sr. Leopoldo de Bulhões: — Lamentamos que o honrado presidente do Conselho não se tenha posto à frente do seu partido, para dar solução à questão servil, que poderia congregar-nos a todos. Porque, senhores, a bandeira liberal hoje é a bandeira da abolição. (Apoiados).
O Sr. Frederico Borges: — O partido abolicionista é formado da dedicação de todos os partidos do Império.
O Sr. Leopoldo de Bulhões: — A bandeira do Partido Liberal deve ser, hoje, a bandeira da abolição.
O Sr. Ratisbona: — É a bandeira de uma parte do Partido Liberal, mas não de todo o partido. (Diversos apartes).
O Sr. Leopoldo de Bulhões: — O péssimo sistema seguido até hoje pelo Partido Liberal tem sido o de pregar doutrinas, fazer programas pomposos e, uma vez no poder, esquecer os compromissos tomados. (Apoiados).
Rememoremos todos esse erro do passado e tratemos de derrubar uma instituição que nos degrada, cujo desaparecimento abrirá novos horizontes ao Brasil.
Ciência — A Febre Amarela e o Micróbio
O Paiz do dia 18 do mês passado trouxe, sob o título “Descoberta magnífica”, um interessantíssimo artigo noticiando importantíssimas investigações científicas, feitas na Policlínica do Rio de Janeiro pelo Dr. Vieira de Mello, sobre a natureza do micróbio da febre amarela.
Como se sabe, o Dr. Domingos Freire, guiando-se pelas pistas de Pasteur e pelos magníficos resultados que o ilustre professor parisiense tem obtido com o emprego do microscópio na investigação das febres e de um grande número de moléstias, chegou a descobrir que a febre amarela nada mais é do que um biclínio (Cryptococcus xanthogenicus), que ele demonstrou existir não só no sangue e nos vômitos dos doentes, como em lavagens da terra das ruas do Rio de Janeiro, etc.
Está hoje geralmente admitido que a febre amarela (assim como as febres palustres) é uma moléstia parasitária.
A infecção paludosa estava admitida desde muito tempo, sendo a existência da chamada “malária” e sua reprodução em organismo animal um fato considerado líquido. O que o Dr. Vieira de Mello agora pretende demonstrar é que a malária, conhecida em todo o mundo, e o cryptococcus descoberto pelo Dr. Domingos Freire são uma só e a mesma entidade, com efeitos diferentes conforme circunstâncias ocasionais estranhas à sua natureza.
Segundo o sistema do Dr. Vieira de Mello, a febre amarela é apenas uma forma gravíssima de epidemia palustre; e, se o ilustre investigador conseguir provar este postulado, o tratamento do terrível flagelo entrará no domínio do já conhecido sulfato de quinino.
S. M. o Imperador assistiu a uma exibição dos resultados até agora obtidos, vendo no microscópio o cryptococcus do Dr. Freire e o achando idêntico ao do Dr. Vieira de Mello, sendo este encontrado no sangue dos doentes de sezões e nas regiões mais palustres do Brasil.
Economia — O Fumo Brasileiro
Qual fumaça gigantesca, o fumo queimado em nuvem cobre de cinza a serra vizinha, e o sol, à gazua escura, irrompe o rei do dia inútil — enorme brasa entre opacada.
Epiléptico, doido, em rígida lufada, brame lá pelos morros atravessando; e, das sarças lambendo a róbida ardência, um banho dá do molhado luta desvairada.
Depois, rasgando da cinza o solo carbonado, verdejam novamente os montes e a planura, e vem, depois do horror, o cubiçado fruto.
E da primeira chuva a úmida frescura rejuvenesce e ri-se (que isto é lei do fado) a eterna Salamandra — a provida Natureza.
Editorial sobre o Fumo
É tempo de lembrar aos nossos agricultores que, ainda por largos anos, será o fumo o único produto capaz de nos ministrar um artigo agrícola para exportação lucrativa e ativa, em razão de sua excelência.
O fumo goiano, sobre o qual fundamos tantas esperanças, tem em si qualidades superiores e já disputa terreno com os concorrentes estrangeiros.
É preciso, contudo, que se mantenha a constância no cultivo e se procurem meios de aperfeiçoar a preparação do fumo, para que possamos enfrentar, com vantagem, o triunfo seguro contra o magro caporal, o insípido “Yorkshire” e até mesmo o famoso tabaco cubano.
É preciso ainda advertir os agricultores de que, se o fumo nos dá uma base segura de exportação, não devemos descuidar da diversificação, a fim de garantir maior estabilidade econômica para a província.
Poesia — “O Incêndio”
Como labareda imensa, o fogo se ergueu em nuvem de cinza cobrindo a serra, e o sol, entre a fumaça escura, apareceu como uma brasa inútil no meio da guerra.
Epiléptico, louco, em lufadas bramava, correndo pelos morros, rugindo sem freio, e das sarças queimadas, a chama lambia, qual se fosse do mundo o último seio.
Depois, do carvão e da cinza desfeita, verdeja de novo a planície encantada; e vem, após o horror da fúria desmedida, a primeira chuva — frescura sagrada.
Assim, da morte, renasce a ternura, ri-se a natureza — eterna salamandra, que se alimenta do fogo e da ventura, lei do destino, providência que manda.
Poesia — “O Cão”
Era um bonito cão, grande, gordo, risonho, em V… (versos ilegíveis pelo OCR).
Mas um dia, já velho, nas ventas do cão veio o mau cheiro, a doença, a ruína, e aquele que fora robusto guardião tornou-se apenas lembrança ferina.
Correio Oficial
Do dia 30 do mês findo, além do expediente do 9º da última sessão de julho, traz um longo relatório: conclusão do parecer das comissões reunidas de Justiça Civil e Negócios Eclesiásticos, assim como a dos deputados, sobre o projeto do casamento civil;
— um edital do capitão Antônio [ilegível], suplente do juiz municipal do termo do Catalão; — um auto público de posse, a pedido.
Noticiário Científico e Literário
A edição traz também notas diversas, entre elas um resumo das descobertas de Vieira de Mello sobre a febre amarela, já comentadas, e a publicação de poemas variados.
Um dos destaques foi a divulgação de observações de Pasteur, em Paris, sobre o microscópio e a natureza microbiana das moléstias contagiosas.
Editorial de Fecho
O Goyaz encerra esta sua primeira edição reafirmando seu papel como órgão liberal da província.
Apesar das dificuldades técnicas e financeiras de instalação, é dever da imprensa manter o debate vivo, seja nas questões políticas (como a queda do ministério Saraiva e a ascensão do gabinete Cotegipe), seja na questão maior da abolição, ou ainda na divulgação das descobertas científicas que interessam ao progresso da pátria.
Política, ciência, agricultura, literatura e poesia — tudo deve encontrar lugar nas páginas deste jornal, porque tudo isso é expressão da vida nacional.