
Brasileiros gastam mais fora do país desde 2014: os gastos de brasileiros em viagens internacionais em junho de 2025 dispararam para US$ 1,8 bilhão, marcando o maior patamar para o mês desde 2014. Em junho daquele ano, as despesas no exterior haviam totalizado cerca de US$ 2 bilhões. O dado mais recente foi divulgado no relatório de estatísticas do setor externo do Banco Central (BC) na última sexta-feira (25).
Brasileiros gastam mais fora do país desde 2014
Esse aumento robusto é notável, especialmente considerando que as despesas líquidas com viagens internacionais cresceram 17% no mês passado, atingindo US$ 1,3 bilhão. Esse crescimento se deve a um incremento de 14,1% nas despesas brutas (US$ 1,8 bilhão) e um aumento de 7,8% nas receitas (US$ 539 milhões) provenientes de turistas estrangeiros no Brasil.
No acumulado do primeiro semestre de 2025, de janeiro a junho, os gastos dos brasileiros em viagens internacionais já somam US$ 10,2 bilhões.
Este avanço nos gastos acontece mesmo com o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre o câmbio, cuja alíquota foi elevada em maio, encarecendo a compra de moeda estrangeira. A persistência dos altos gastos, apesar da medida, pode indicar uma forte demanda reprimida por viagens internacionais, a valorização do real em relação a algumas moedas e uma recuperação da confiança do consumidor brasileiro.
Os gastos de brasileiros no exterior com moedas internacionais têm um impacto significativo e multifacetado sobre o mercado nacional e a economia do país. Esse fenômeno está diretamente ligado à balança de pagamentos do Brasil, especialmente à sua conta de serviços.
Impacto na Balança de Pagamentos
- Déficit na Conta de Serviços: Quando brasileiros gastam mais no exterior (com viagens, hospedagens, compras, educação, etc.) do que estrangeiros gastam no Brasil, isso gera um déficit na conta de serviços da balança de pagamentos. Essa conta registra a movimentação de divisas relacionadas a serviços, e um saldo negativo indica que mais dólares (ou outras moedas estrangeiras) estão saindo do país do que entrando por essa via.
- Pressão sobre as Contas Externas: Um déficit persistente na conta de serviços, se não for compensado por um superávit na balança comercial (exportações maiores que importações de bens) ou por um fluxo robusto de investimento estrangeiro direto (IED), pode levar a um déficit total nas contas externas. Isso significa que o país está gastando mais moeda estrangeira do que está gerando, o que pode pressionar o câmbio e as reservas internacionais.
Consequências para o Mercado Nacional e a Economia
- Pressão Cambial: Um aumento significativo nos gastos com moeda estrangeira eleva a demanda por essas moedas no mercado doméstico. Se essa demanda não for atendida por um aumento equivalente na oferta (por exemplo, via exportações ou IED), o preço da moeda estrangeira (o dólar, por exemplo) tende a subir em relação ao real. Isso leva à desvalorização do real, tornando as importações mais caras e, consequentemente, impactando a inflação e o custo de vida.
- Impacto no Turismo Doméstico: Gastos elevados no exterior significam menos recursos sendo direcionados para o turismo e o consumo dentro do Brasil. Isso pode prejudicar o setor de turismo nacional, incluindo hotéis, restaurantes, agências de viagem, transportes e outros serviços relacionados, que poderiam se beneficiar desses recursos se fossem gastos internamente.
- Redução de Divisas: As divisas (moedas estrangeiras) são essenciais para o Brasil pagar suas importações, honrar dívidas externas e manter a estabilidade econômica. Um fluxo líquido de saída de moeda estrangeira devido a gastos no exterior reduz a disponibilidade dessas divisas no país.
- Sinal de Confiança e Recuperação Econômica (com ressalvas): Por outro lado, o aumento dos gastos no exterior pode ser um indicativo de que a confiança do consumidor brasileiro está em alta e que há uma melhora no poder de compra da população. Se o real está valorizado em relação ao dólar, ou se a economia está crescendo e as pessoas têm mais renda disponível, é natural que busquem mais viagens e produtos internacionais. No entanto, é crucial que esse aumento de gastos esteja alinhado com a capacidade do país de gerar divisas para evitar desequilíbrios.
- Perda de Arrecadação Interna: Em certa medida, o consumo de bens e serviços no exterior, que seria taxado no Brasil (como ICMS, PIS, Cofins), acaba gerando receita tributária para outros países. Embora haja o IOF sobre operações de câmbio, parte do potencial de arrecadação doméstica é transferida para o exterior.
Em suma, embora o aumento dos gastos no exterior possa sinalizar uma melhora na renda e na confiança do consumidor, para a economia nacional, especialmente do ponto de vista da balança de pagamentos, representa um desafio. É um sinal que o Banco Central e o governo monitoram de perto, pois pode impactar o câmbio, as reservas e a competitividade do mercado doméstico.