Chapões e fundo eleitoral colocam base governista sob pressão
Pulverização de candidaturas ameaça desempenho da base em Goiás e partidos buscam calibrar chapas para transformar votos em cadeiras

Chapões e fundo eleitoral colocam base governista sob pressão: a formação das chapas proporcionais para deputado estadual e deputado federal tornou-se, em Goiás, o principal desafio político do governador Ronaldo Caiado (PSD) e do vice-governador Daniel Vilela (MDB) às vésperas do calendário eleitoral de 2026.
A disputa ocorre em um contexto no qual o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) concentra praticamente todo o financiamento das campanhas. Para as eleições de 2026, o montante nacional do fundo deve alcançar cerca de R$ 4,9 bilhões.
Desse total, o União Brasil deve administrar aproximadamente R$ 780 milhões; o MDB, em torno de R$ 360 milhões; o PSD, cerca de R$ 350 milhões; enquanto a federação União Brasil–Progressistas pode superar R$ 900 milhões em recursos públicos destinados às campanhas.
Chapões e fundo eleitoral colocam base governista sob pressão
Mais do que acomodar aliados ou atender ambições individuais, o problema central envolve a gestão estratégica desses recursos. Presidentes de partidos e lideranças da base governista avaliam que uma pulverização excessiva do fundo eleitoral pode comprometer o desempenho das chapas, reduzindo a capacidade de concentrar investimentos em candidatos com reais chances de vitória.
Em um sistema no qual doações empresariais são proibidas e o autofinanciamento é cada vez mais restrito, errar na montagem das listas proporcionais passou a ser um risco político elevado.
Pelo menos 11 integrantes do primeiro escalão do governo estadual devem se afastar de seus cargos até o início de abril para cumprir os prazos legais de desincompatibilização. Entre os nomes citados nos bastidores estão Adriano da Rocha Lima, secretário-geral de Governo; Alex Godinho, chefe de Gabinete do governador; Alexandre Baldy, presidente da Agência Goiana de Habitação (Agehab); Carlão da Fox, presidente das Centrais de Abastecimento de Goiás (Ceasa); Delegado Waldir Soares, presidente do Detran-GO; Fátima Gavioli, secretária de Estado da Educação; Gustavo Mendanha, integrante da cúpula administrativa estadual e ex-prefeito de Aparecida de Goiânia; Joel Santana Braga Filho, secretário de Indústria, Comércio e Serviços; Pábio Mossoró, secretário do Entorno do Distrito Federal; Pedro Sales, presidente da Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes (Goinfra); e Walter Vosgrau, vice-prefeito de Anápolis e aliado do Palácio das Esmeraldas.
O grupo reúne auxiliares com planos distintos: parte avalia disputar cargos majoritários, como o Senado ou a vice-governadoria; outros trabalham projetos para a Câmara dos Deputados; enquanto o restante mira cadeiras na Assembleia Legislativa de Goiás.
Essa movimentação ocorre paralelamente à saída já definida de Caiado do comando do Estado, seja para disputar a Presidência da República ou para concorrer a uma vaga no Senado pelo PSD, o que levará Daniel a assumir definitivamente o governo de Goiás.
A eventual ascensão de Daniel ao Palácio das Esmeraldas abre uma segunda frente de tensão: a reorganização do secretariado. Aliados afirmam que o vice-governador ainda não definiu nomes para o novo primeiro escalão, mas pretende aproveitar o momento para oxigenar a gestão e nomear quadros de sua estrita confiança, especialmente em pastas estratégicas.
A troca, no entanto, também alimenta o apetite eleitoral de auxiliares que veem na máquina administrativa uma plataforma para viabilizar projetos eleitorais, pressionando ainda mais a montagem das chapas.
No centro desse tabuleiro está a recente filiação de Caiado ao PSD, movimento que forçou uma reengenharia na distribuição dos pré-candidatos entre os partidos da base governista. A mudança obrigou União Brasil, Progressistas, MDB e o próprio PSD a revisarem suas listas e renegociarem espaços, sob o risco de pulverizar recursos e comprometer o desempenho eleitoral coletivo.
Entre os nomes mais citados para o Congresso Nacional está Gracinha Caiado, apontada para disputar o Senado. Caso o governador redirecione seus planos nacionais, Gracinha pode ser reposicionada como suplente ou até mesmo como candidata à Câmara Federal, a depender das costuras políticas.
Alexandre Baldy, do Progressistas, e Gustavo Gayer, do PL, também figuram no radar das articulações para Brasília. No governo estadual, secretários como Adriano da Rocha Lima, Pedro Sales e Fátima Gavioli aguardam definições finais para decidir se deixam os cargos e em qual faixa da disputa entrarão. Além disso, o atual presidente do PSD em Goiás, senador Vanderlan Cardoso, não abre mão de sua candidatura de reeleição ao Senado.
Para a Assembleia Legislativa, nomes como Adib Elias, Francisco Jr. e Carlão da Fox já sinalizaram disposição para disputar mandato, mas admitem que seguirão a orientação da cúpula governista para evitar conflitos internos e preservar a unidade da base.
A complexidade aumenta quando se observa o volume de pré-candidatos distribuídos entre as legendas da base governista. No MDB, concentram-se nomes como Amilton Filho, Charles Bento, Issy Quinan, Lineu Olímpio, Lucas do Vale, Célio Silveira e Marussa Boldrin. O partido também mantém interlocução política com Pábio Mossoró, Paulo Cezar Martins, do PL, e Sargento Novandir, do Avante, embora estes não integrem formalmente seus quadros. Ainda nesse campo, Cairo Salim está filiado ao PSD, enquanto George Morais pertence ao PDT, ambos citados em articulações mais amplas envolvendo a formação das chapas proporcionais.
Na federação União Brasil–Progressistas, aparecem pelo União Brasil nomes como Amauri Ribeiro, Lincoln Tejota, Talles Barreto, Virmondes Cruvinel, Lucas Kitão, Paulo do Vale e o presidente da Assembleia Legislativa, Bruno Peixoto, considerado peça central nas negociações.
Pelo Progressistas, surgem Jamil Calife, Alessandro Moreira e Vivian Naves. Também orbitam esse bloco, embora filiados a outras legendas, Rubens Marques, do PROS, Veter Martins, do Patriota, e Wilde Cambão, do PSD, este último em processo de reavaliação partidária diante das novas configurações da base.
No grupo formado por PRD e Solidariedade, figuram Cristóvão Tormin, do PRD, Coronel Adailton, Júlio Pina e Romário Policarpo, todos do Solidariedade. Aparecem ainda nesse entorno Zeli Fritsche, do PRTB, Anderson Teodoro, do Avante, e Wagner Júnior, também do Solidariedade, citados como possíveis integrantes das chapas proporcionais.
No PSD, partido ao qual Caiado se filiou recentemente, as articulações envolvem o senador Vanderlan Cardoso, além de Adair Henriques da Silva, José Nelto, Vilmar Rocha e o médico Walter Vosgrau. Ismael Alexandrino, hoje cortejado pelo PL, é pressionado a permanecer no PSD para fortalecer a chapa federal. No plano local, também é citado o nome da vereadora Nayara Barcelos, de Rio Verde, embora ela demonstre inclinação maior por uma disputa estadual.
Já no PDT, além de George Morais, está Flávia Morais, apontada como nome com forte potencial eleitoral caso dispute a Câmara dos Deputados, ainda que seu futuro partidário siga como objeto de especulação nos bastidores.
Segundo analistas, é justamente aí que surge o principal gargalo político. Presidentes de partido enfrentam dificuldade para fechar chapas enxutas e competitivas. O receio é claro: quanto mais candidatos, maior a pulverização do fundo eleitoral, reduzindo a capacidade de investimento nos nomes com reais chances de vitória.
Em um sistema no qual doações empresariais são proibidas e o autofinanciamento é limitado, o fundo eleitoral se tornou praticamente a única fonte robusta de financiamento de campanha.
Nos bastidores, a avaliação é que Caiado e Daniel Vilela terão de arbitrar conflitos, vetar candidaturas e concentrar recursos nos nomes mais viáveis. Trata-se menos de agradar aliados e mais de montar chapas capazes de transformar votos em cadeiras.
Em um ambiente político cada vez mais dependente do fundo eleitoral, errar na dosagem pode custar não apenas mandatos, mas o controle do poder político em Goiás nos próximos anos.