Desumanização de imigrantes nos EUA sob Trump, diz autor

Desumanização de imigrantes nos EUA guia a narrativa do jornalista Jamil Chade no livro “Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana”, recém-lançado pela editora Nós. Ao longo de 2024 e 2025, o autor percorreu milhares de quilômetros em mais de dez estados norte-americanos e visitou os dois lados do muro que separa Estados Unidos e México, registrando o clima de medo, pobreza e ataque a direitos básicos sob a gestão de Donald Trump.
Chade relata, em entrevista à Agência Brasil, que a crise existencial da sociedade norte-americana alimenta a ascensão de práticas autoritárias. Segundo ele, a tentativa do ex-presidente de resgatar o “sonho americano” resultou na consolidação de uma realidade distópica, visível em cidades abandonadas no Arkansas e em periferias comparáveis a Bangladesh.
Desumanização de imigrantes nos EUA sob Trump, diz autor
Para o repórter, a desumanização é instrumento político: ao retratar estrangeiros como inimigos, o Estado se exime de garantir serviços e direitos. “Genocídios começam quando se retira a humanidade do outro”, afirma. A estratégia, explica, legitima deportações, xenofobia e racismo, sustentando o projeto de poder da extrema-direita.
O livro também expõe o papel da desinformação. Plataformas digitais e veículos alinhados a Trump, como a Fox News, teriam “hackeado a democracia”, criando realidades paralelas que influenciam o voto. Chade defende a regulação das redes sociais, argumento ecoado em relatórios da Organização das Nações Unidas sobre discurso de ódio online.
Na esfera geopolítica, o autor enxerga pressão crescente de Washington sobre a América Latina em meio à disputa com a China, classificando o Brasil como “joia da coroa” nos planos dos EUA. A depender das eleições de 2026, diz, o continente pode redefinir seu alinhamento internacional.
Com 25 anos de carreira em Genebra e passagens por 70 países, Chade lembra que o título de seu livro surgiu após seu filho ouvir, na escola de Nova York, a frase: “tomara que você seja deportado”. Para o jornalista, tanto a criança que ofendeu quanto a que foi ofendida são vítimas de uma liderança que transforma o diferente em alvo.
Ao denunciar o desmonte de instituições democráticas, a obra convida o leitor a refletir sobre como processos eleitorais podem ser usados para minar a própria democracia. “A grande questão é: a democracia vai sobreviver a movimentos autoritários que utilizam suas regras para permanecer no poder?”, questiona.
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Crédito da imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil