
O recente desfecho do caso da goiana Letícia Oliveira Alves, cujo corpo foi localizado após figurar na Difusão Amarela da Interpol, jogou luz sobre um mecanismo de busca global muitas vezes ignorado pela população e pelas próprias autoridades locais. A ferramenta, que opera como uma rede de alerta em 198 países, é fundamental para o rastreio de pessoas desaparecidas além-fronteiras. No entanto, o desconhecimento sobre como acionar e manter esses alertas ativos reflete um gargalo na segurança pública. Atualmente, sete goianos compõem a lista pública dessa cooperação internacional, vivendo em um limbo entre a esperança das famílias e o esquecimento dos arquivos oficiais.
Um dos casos mais emblemáticos é o de Mayra Silva Paula, estudante de enfermagem que desapareceu aos 20 anos, no dia 4 de julho de 2009. Quase duas décadas depois, a ferida permanece aberta para a família, que hoje denuncia o que classifica como ineficácia estrutural do Estado. As críticas recaem sobre a atuação coordenada — ou a falta dela — entre o Ministério Público Federal, a Força Nacional e a Polícia Federal, que herdaram um inquérito que já demonstrava sinais de exaustão em suas etapas iniciais na esfera estadual.
A cronologia do caso revela um jogo de empurra institucional que culminou no arquivamento das buscas oficiais em outubro de 2019. Segundo o advogado da família, Breyner Silva, a investigação começou sob a responsabilidade da Delegacia de Homicídios de Goiânia, mas, diante da suspeita de tráfico humano ou saída clandestina do país, o processo foi remetido à Justiça Federal. O MPF realizou buscas extensivas em registros de saída de aeroportos e fronteiras secas, além de monitorar unidades hospitalares e cartórios para verificar se Mayra teria dado à luz sob outra identidade. Sem nenhum rastro digital ou físico de sua passagem por esses órgãos, as autoridades optaram por encerrar o caso.
A inclusão de Mayra na Difusão Amarela foi uma das últimas tentativas de manter o caso vivo internacionalmente. Todavia, o cartaz de busca apresentava lacunas críticas: não especificava o ponto exato do desaparecimento nem oferecia diretrizes sobre em quais países ela poderia ter buscado refúgio ou sido levada. Esse isolamento de informações dificultou a colaboração de polícias estrangeiras, tornando o alerta internacional um documento meramente burocrático, sem efetividade prática na ponta da linha.
O último registro de Mayra ocorreu em uma madrugada de sábado, após um evento que, anos depois, ainda soa como uma emboscada. Às 00h45, a jovem atendeu uma ligação em um telefone público localizado exatamente em frente ao prédio onde morava com três amigas, no Setor Pedro Ludovico, em Goiânia. Ao descer para atender o orelhão, Mayra desapareceu sem levar documentos ou pertences. Dias depois, um torpedo enviado do celular da estudante para uma amiga indicava que ela teria deixado uma carta no apartamento. No bilhete, revelou uma gravidez que escondia da mãe, Edlamar Rosário da Silva Oliveira, e pedia perdão pelo “problema” que não conseguira resolver.
Para Edlamar, a tese de suicídio, aventada inicialmente pela polícia, nunca fez sentido pela ausência de um corpo. A mãe acredita que o medo do julgamento familiar pela gravidez e a influência do então namorado — um policial militar — possam ter moldado o destino da filha. Na data do desaparecimento, Mayra tinha uma viagem programada para Nova Glória, onde passaria as férias com a família. O silêncio do celular e a ausência na rodoviária marcaram o início de uma vigília que já dura 18 anos, alimentada apenas pela memória e pela cobrança de que o Estado não trate desaparecidos apenas como números em cartazes amarelados.