
Goiás vive uma pré-campanha sem centro de gravidade político: diferentemente de outras unidades da federação, onde as chapas majoritárias já começam a se desenhar com maior nitidez, o tabuleiro goiano permanece marcado por indefinições, disputas internas e forte dependência das decisões nacionais dos partidos.
Para aprofundar o debate sobre a sucessão em Goiás, o professore e cientista político Marcos Marinho detalha as movimentações partidárias e as estratégias de bastidores em análise exclusiva para o GOYAZ (confira a entrevista técnica na seção final desta matéria).
Goiás vive uma pré-campanha sem centro de gravidade político
A ausência de arranjos completos para o governo, vice-governadoria e Senado reflete não apenas a fragmentação das forças locais, mas também a cautela das lideranças diante de um cenário nacional ainda em formação.
PSD, Caiado e o reposicionamento do Palácio das Esmeraldas
A filiação do governador Ronaldo Caiado ao PSD redesenhou o eixo de poder no estado, deslocando o centro das articulações para além das fronteiras regionais.
O projeto prioritário de Caiado segue sendo a construção de uma candidatura presidencial, movimento que, se bem-sucedido, ampliaria seu capital político nacional, mas que, até o momento, carece de garantias claras por parte da direção nacional da sigla.
Essa indefinição tem efeitos diretos sobre a sucessão em Goiás. Caso a candidatura presidencial não se consolide, o governador tende a optar por uma disputa ao Senado Federal, abrindo uma complexa disputa interna no PSD.
Nesse cenário, a eventual candidatura da primeira-dama, Gracinha Caiado, também ao Senado, enfrenta limitações políticas e eleitorais, sobretudo diante da posição já afirmada do senador Vanderlan Cardoso.
Vanderlan, ao confirmar publicamente sua intenção de buscar a reeleição, sinaliza que não pretende abrir mão de seu espaço, respaldado tanto por sua base eleitoral em Goiânia e interior quanto pelo apoio direto do presidente nacional do partido, Gilberto Kassab.
O impasse no PSD revela um dilema clássico: a dificuldade de acomodar projetos pessoais de grande envergadura dentro de uma legenda que busca ampliar sua presença institucional sem sacrificar quadros já consolidados.
Direita fragmentada e o cálculo do PL
No campo da direita, o PL atua de forma pragmática. Setores da legenda avaliam uma aproximação com a base governista liderada por Daniel Vilela, reconhecendo a força da máquina estadual e a vantagem competitiva de uma eventual coligação.
A agenda do senador Wilder Morais com o ex-presidente Jair Bolsonaro, marcada para 14 de fevereiro, é decisiva para definir os rumos da sigla em Goiás.
Uma aliança entre o PL e o grupo governista poderia resultar na indicação do deputado federal Gustavo Gayer para a disputa ao Senado, utilizando sua expressiva votação e engajamento nas redes sociais como ativo eleitoral.
Essa movimentação, contudo, exigiria equilíbrio fino entre o bolsonarismo ideológico e a lógica de governabilidade estadual, nem sempre convergentes.
Oposição em reconstrução e o papel de Marconi Perillo
A oposição, sob a liderança do ex-governador Marconi Perillo (PSDB), ainda se encontra em fase inicial de reorganização. A falta de uma chapa definida evidencia as dificuldades de reconstruir um campo político.
As conversas com o deputado federal Zacharias Calil para uma candidatura ao Senado indicam a busca por um nome com apelo técnico e eleitoral, capaz de dialogar com segmentos além da base tradicional tucana.
Calil, que não conseguiu viabilizar seu projeto dentro da atual base governista, avalia a migração partidária como alternativa estratégica.
Ainda assim, a ausência de definições para a para a vice-governadoria e Senado reforça o caráter embrionário da articulação oposicionista, que depende da consolidação de um discurso capaz de confrontar tanto o legado de Caiado quanto o pragmatismo das alianças de direita.
Esquerda em compasso de espera e dependência do cenário nacional
À esquerda, o Partido dos Trabalhadores adota postura cautelosa. A legenda mantém discussões internas sob a coordenação da deputada federal Adriana Accorsi, mas evita antecipar nomes para o Palácio das Esmeraldas. O leque de possibilidades inclui Edward Madureira, Rubens Otoni, Valério Luiz Filho e Antônio Gomide, todos com trajetórias reconhecidas, porém com desafios distintos de viabilidade eleitoral.
A menção ao ex-governador José Eliton como possível integrante de uma chapa majoritária indica uma tentativa de ampliar o espectro de alianças, mas esbarra em um obstáculo central: a indefinição do palanque presidencial em Goiás.
Sem clareza sobre a configuração nacional da esquerda e suas alianças, o PT e seus parceiros preferem aguardar, evitando movimentos que possam se tornar contraproducentes no médio prazo.
Um tabuleiro aberto
O cenário goiano para 2026, portanto, permanece aberto e altamente dependente de fatores externos ao estado. A definição das candidaturas presidenciais, o reposicionamento das grandes siglas e a capacidade de articulação entre forças locais serão determinantes para transformar as atuais conversas em projetos eleitorais consistentes.
Até lá, Goiás segue como um dos principais laboratórios políticos do país, onde cautela e cálculo estratégico prevalecem sobre decisões definitivas.
Análise
Para examinar as nuances do quadro eleitoral, o professor Marcos Marinho, especialista em ciência política, apresenta ao GOYAZ uma análise sobre as articulações e os possíveis desdobramentos da sucessão estadual em Goiás.
1) A filiação de Ronaldo Caiado ao PSD trouxe uma variável nacional para a sucessão estadual. Caso a candidatura à Presidência não se confirme e o governador opte pelo Senado, como fica o espaço para Gracinha Caiado e Vanderlan Cardoso, considerando que o PSD teria, em tese, três nomes fortes para apenas duas vagas?
Marinho: Essa possibilidade de o Caiado não conseguir emplacar a candidatura à Presidência e vir ao Senado também tem sido ventilada já há um tempo nos bastidores. Isso corre desde aquela viagem a Portugal, na qual foi uma comitiva bem considerável de políticos goianos.
Agora, vamos considerar que, ainda que isso aconteça, a problemática das vagas não haveria, porque a Gracinha está no União Brasil e, pelo visto, ela vai continuar no União Brasil. Então, nós teríamos, aí sim, uma chapa completa ao Senado: pelo PSD, sendo Caiado em uma vaga e o Vanderlan na segunda.
Como eu tenho pontuado, eu não imagino que o Kassab vá tirar o Vanderlan do partido e perder o mandato de um senador.
Agora, tem uma outra questão: o quanto a população iria aceitar bem isso e, também, como a oposição iria trabalhar esse ponto. Não é uma questão de você ter marido e mulher disputando vagas ao Senado na mesma eleição. Não sei nem se juridicamente isso é possível também. Mas, a priori, seria um baque, porque mexeria com muita coisa do cenário político.
Já ouvi dizer também que, talvez, se Caiado viesse ao Senado, aí a Gracinha desceria para disputar como deputada federal, o que também mexeria demais, pois alteraria totalmente a chapa do próprio União Brasil. Então, por enquanto, a questão está bem tensa. A gente não tem uma clareza de fato do que vai acontecer caso o Caiado venha a desistir.
Eu imagino que, nesta altura do campeonato, tenha muita gente torcendo para ele não desistir de jeito nenhum e para o Kassab aceitar e lançá-lo como o nome do PSD. Inclusive, e principalmente, o próprio Daniel Vilela deve estar torcendo para isso.
2) Professor Marinho, para elucidar este ponto: a viabilidade de Ronaldo Caiado à presidência é hoje mais uma questão de torcidas internas e entusiasmo das bases, ou essa conjectura depende estritamente da validação da cúpula nacional do PSD e do desempenho em pesquisas eleitorais quantitativas?
Marinho: na minha leitura, tudo passa pela visão de jogo de Kassab. Ele tem clareza de que seu principal objetivo é se fortalecer, de forma contínua, como o maior articulador da República. Nessa equação, não entram paixão, emoção ou o tamanho do fã-clube de A ou B. O critério é outro: potencial eleitoral e capacidade de entrega política.
Ao construir uma composição que atraiu praticamente todo o campo da centro-direita para sua órbita, Kassab empurrou Flávio Bolsonaro para um espaço mais restrito da extrema-direita — um campo que carrega elevada taxa de rejeição.
Com isso, concentrou em suas mãos a possibilidade de influenciar não apenas o cenário de Goiás, mas também de estados estratégicos como Paraná, Rio Grande do Sul e outros.
A lógica é simples e pragmática: trazer os principais players para perto, formando um bloco político coeso. Esse bloco pode ser apresentado na mesa de negociações conforme a conveniência do momento.
Pensando em um eventual segundo turno presidencial, Kassab passa a deter a capacidade de mobilizar grande parte do eleitorado da direita e da centro-direita — seja em favor de um candidato próprio, caso este avance contra Lula, seja em apoio ao próprio Lula, se isso atender aos interesses do PSD e ao seu projeto político.
Há ainda uma terceira hipótese: apoiar Flávio Bolsonaro, caso Kassab conclua que ele reúne condições reais de derrotar Lula. Em todos os cenários, a decisão não será ideológica, mas matemática.
O que importa é o desenho que o tabuleiro apresentar quando o jogo, de fato, começar — especialmente a partir de agosto.
Kassab, portanto, trabalha para consolidar um verdadeiro império político. Um arranjo em que seu poder de articulação se torna incontornável e no qual, ao se discutir qualquer grande decisão na República, será inevitável sentar à mesa com ele.
3) Considerando a visita de Wilder Morais ao ex-presidente Bolsonaro, qual a probabilidade de o diretório nacional do PL priorizar uma candidatura própria ao governo em detrimento de uma aliança com o União Brasil, MDB e PSD? O senhor avalia que o desfecho mais provável seria a consolidação de uma chapa híbrida, utilizando a vaga ao Senado como moeda de troca para assegurar a unidade da direita em Goiás?
Marinho: Eu entendo que, para que se cumpra o desejo do próprio Bolsonaro — manifestado ainda no ano passado —, o ideal seria focar nas vagas do Senado. Ter um palanque do PL, com estrutura própria, fundo partidário e cabeça de chapa, apresenta-se como uma estratégia mais inteligente.
Essa linha de raciocínio foca na eleição de Gustavo Gayer e, talvez, na viabilização de mais um nome para o Senado, ainda que se enfrente Gracinha Caiado do outro lado. Caso Gayer opte pela junção com o grupo de Caiado, Daniel Vilela e o MDB, a justificativa para o seu eleitorado mais raiz e identitário torna-se complexa.
É preciso lembrar que o eleitorado bolsonarista mantém um perfil rígido e, em diversos momentos, atribuiu rótulos ideológicos adversos a Caiado e Daniel. Como ficaria essa narrativa?
Percebo que, para Gayer, a aliança pode ser interessante por facilitar uma aproximação de votos com a base de Gracinha, mas para o PL como instituição, a inteligência da manobra é questionável.
Considerando que Bolsonaro demonstra disposição para sacrificar o mandato de Flávio Bolsonaro para manter o sobrenome na urna e garantir um recall forte visando 2030, deixar senadores da base enfraquecidos ou não eleitos seria um erro estratégico grave.
Nesse contexto, a possibilidade de Ronaldo Caiado disputar o Senado agrava o cenário para o PL, pois poderia comprometer diretamente a viabilidade de Gustavo Gayer. A manutenção de uma bancada ideológica firme no Senado Federal é prioritária para os planos de longo prazo da direita nacional.
A decisão final passará pelo crivo das lideranças que monitoram o cenário.
4) Do lado da oposição, observamos Marconi Perillo (PSDB) buscando nomes como Zacharias Calil e o PT ainda em fase de sondagens internas com Adriana Accorsi. Qual o risco estratégico para essas frentes ao demorarem para apresentar uma chapa completa, enquanto a base governista já possui a estrutura do estado para consolidar o nome de Daniel Vilela?
Marinho: É, para mim está muito claro hoje que o foco do PT não é fazer frente ao Daniel; acho que nem eles acreditam na possibilidade de vitória contra o Daniel e o Caiado. Porque, hoje em dia, você olha para o cenário político de Goiás e você não vê o Daniel, você vê o Caiado.
Então, é basicamente uma reeleição indireta do caiadismo, do modelo Caiado de gestão, porque o Daniel sequer está fazendo questão de imprimir uma imagem própria, uma identidade própria.
Para o PT, acho que não há nem essa preocupação de entrar nessa briga. Eles querem, sim, fazer uma chapa forte de deputados federais, que é bastante útil para a legenda em relação ao fundo partidário e também para dar sustentação ao presidente Lula.
O Senado, eu imagino, também não é tanto o foco, porque não tem nem o nome natural e nem forte o suficiente ali na base do PT e dos partidos mais à esquerda. Se houvesse uma junção com o Marconi, o que está cada vez mais difícil de acontecer, pode ser que houvesse também uma intenção real de conquistar uma dessas vagas.
Então, hoje eu leio que o PT está focado em fazer uma boa chapa de federal e bater mais de duas cadeiras, né? Eu acho que é o mínimo que o PT pode entregar para o Lula; a terceira cadeira na Câmara Federal é o mínimo, porque se não ganhar nem isso, aí de fato complica.
Agora, o Marconi está naquela questão de que ele está ficando isolado. Ou ele está jogando com a possibilidade de os insatisfeitos com o fechamento da chapa do Daniel migrarem para o lado dele, ou de fato é porque ele não está sabendo onde atirar, onde mirar.
A força de atração hoje do PSDB está muito diminuída, por isso ele não tem muito o que fazer. Ele está tentando se fortalecer enquanto um player viável para a cabeça de chapa, mas é o contexto?
Falta grupo, falta gente, falta militância aquecida. Faltam partidos interessados em compor com essa base de oposição, o que atualmente no cenário não está acontecendo.