
LDO passa e relatório cai com caos no bastidor na Câmara de Goiânia: a Comissão Mista da Câmara Municipal de Goiânia levou mais de três horas para chegar a um desfecho que, na prática, já estava decidido fora do plenário. Entre pausas estratégicas, portas fechadas e versões que não se sustentaram até o fim da tarde, o relatório de Lucas Vergílio (MDB) virou peça descartável, atropelado pelo voto em separado de Pedro Azulão Jr. (MDB), aprovado por unanimidade — aquela unanimidade típica de quando ninguém quer sair com o recibo do desastre.
LDO passa e relatório cai com caos no bastidor na Câmara de Goiânia
O enredo foi previsível: a Prefeitura tentou, a Câmara resistiu, e o percentual de remanejamento orçamentário foi sendo esquartejado ao longo do caminho. Começou em 50%, caiu para 30% e terminou em 23%, índice apresentado como fruto de “equilíbrio institucional”, mas que, nos bastidores, foi tratado como limite máximo tolerável para não deixar o Executivo solto demais nem o Legislativo completamente desmoralizado.
O prefeito Sandro Mabel (UB), quando perguntado ao O Popular, fez o papel de bombeiro burocrático. Disse que “ficou ok”. Não explicou para quem ficou ok, nem até quando. Apenas o suficiente para encerrar a pauta e evitar que a crise atravessasse o fim de semana.
Do relatório derrubado, sobrou pouco — mas sobrou o conveniente. Azulão manteve dois dispositivos de Vergílio: a promessa de que o excesso de arrecadação respeitará as emendas impositivas e a autorização para que vereadores destinem recursos a órgãos estaduais ou federais, desde que a vitrine seja em Goiânia. Moral da história: o discurso é técnico, mas o cálculo segue político.
A Mesa Diretora também garantiu sua blindagem. Permaneceram as emendas que fixam em 4,5% da receita municipal o teto de gastos do Legislativo e criam mecanismos de contingenciamento caso a arrecadação falhe. A cereja do bolo veio com a emenda do presidente da Comissão, Cabo Senna (PRD), sobre equiparação salarial de assistentes administrativos — aprovada sem grandes ruídos, como costuma ocorrer quando o texto nasce no lugar certo.
Outras emendas passaram quase como figurantes no espetáculo principal. Aava Santiago (PSDB) conseguiu obrigar o Executivo a avisar quando uma emenda impositiva ficar esquecida na gaveta. Kátia Maria (PT) garantiu espaço orçamentário para o plano de cargos e salários da Educação. Oséias Varão (PL) impôs limites às subvenções sociais na LOA, com exceções cuidadosamente redigidas para não fechar portas demais.
Mas o que realmente travou a sessão foi o festival de versões. Vergílio jurou que havia acordo fechado no gabinete de Senna, com testemunhas e tudo. Disse que o líder do governo teria pedido a votação de seu relatório, desde que o remanejamento fosse ajustado para 23%. Em troca, ele engoliria algumas emendas e acolheria uma proposta do presidente da Comissão. Um acordo clássico — ao menos até alguém resolver negar.
Wellington Bessa (DC) tratou de desmontar a narrativa em público. Disse que a oposição vive de “manobras” e acusou o relator de tentar empurrar um texto que não refletia nada do combinado. Quando a base leu o relatório com mais atenção, segundo ele, percebeu que o acordo simplesmente não estava lá. Tradução livre: alguém tentou passar recibo de algo que não entregou.
A temperatura subiu quando a sessão foi suspensa duas vezes para reuniões fechadas da base governista. Na volta, o recado estava dado: o relatório de Vergílio não passaria. O relator entendeu o sinal tarde demais. Deixou a sala aos berros, acusando Bessa de não ter palavra, de não saber negociar e de ter provocado toda a confusão. “Você não é homem”, gritou, em uma cena mais próxima de assembleia sindical do que de comissão legislativa.
Bessa respondeu pouco. Negou tudo. E venceu.
Com o relatório enterrado e o voto em separado aprovado, a LDO segue agora para o plenário, onde deve ser votada em primeiro turno na próxima segunda-feira (22), em sessão extraordinária. O presidente da Câmara, Romário Policarpo, já pediu um mutirão para limpar a pauta antes do Natal, do Ano Novo e do recesso parlamentar.
O orçamento segue seu curso formal. O ambiente político, não. E quem saiu da Comissão Mista nesta sexta sabe que o texto aprovado é só a parte visível de um acordo que ninguém quer assinar embaixo.
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Crédito da Imagem: IA