Mabel avança com “choque de gestão” na Comurg
Objetivo é reduzir o custo anual da companhia para a prefeitura de R$ 100 milhões para R$ 30 milhões

Mabel avança com “choque de gestão” na Comurg: desde que assumiu a prefeitura de Goiania, Sandro Mabel (União Brasil) iniciou uma série de medidas impopulares para recolocar a Comurg dentro de um panorama viável. Com isso, Mabel precisou realizar uma série de medidas que geraram críticas, mas que foram consideradas necessárias para sanear as finanças e modernizar a Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg), uma empresa marcada por déficits financeiros e um passivo bilionário. As ações adotadas pela nova gestão configuram um “choque de gestão” com o objetivo declarado de sanear as contas, modernizar a operação e, em última instância, reverter a dependência financeira da companhia em relação ao Tesouro Municipal.
Todas as ações adotadas por Mabel foram implementadas com base em três pilares: redução drástica de custos com pessoal, profissionalização da gestão e a busca por um novo modelo de sustentabilidade financeira. A meta ambiciosa é reduzir o custo anual da Comurg para a Prefeitura de Goiânia de aproximadamente R$ 100 milhões para cerca de R$ 30 milhões.
Mabel avança com “choque de gestão” na Comurg
Um dos primeiros passos de Mabel foi desenvolver e apresentar um Plano de Recuperação da Comurg ao Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás (TCMGO). Este plano visa não apenas equilibrar as contas, mas, crucialmente, reverter a declaração de dependência da empresa em relação ao município, algo que o TCMGO já havia estabelecido. A proposta busca manter a contabilidade da Comurg fora do balanço oficial da Prefeitura, mas admite a possibilidade de liquidação da companhia caso as metas estabelecidas (com previsão de reversão da dependência até 2027) não sejam atingidas.
Apesar de ter negado publicamente a intenção de solicitar recuperação judicial (RJ) para a Comurg, Mabel priorizou esgotar todas as possibilidades de reestruturação. O plano foi acompanhado de um aporte financeiro inicial, com recursos municipais, destinados ao pagamento de rescisões, concessão de aposentadorias e acertos com fornecedores e precatórios.
A reestruturação de pessoal foi a medida mais impactante e notável da gestão. Sandro Mabel anunciou que a Comurg passaria por uma redução de aproximadamente 2,5 mil funcionários. Este corte foi dividido em duas frentes:
Desligamento de Aposentados: A decisão mais dura foi o desligamento de 668 servidores aposentados que ainda permaneciam ativos na companhia. Deste total, 414 foram desligados em cumprimento obrigatório da decisão do Supremo Tribunal Federal (Tema 1022), que proíbe a permanência de aposentados no serviço público após a reforma da Previdência de 2019. Os outros 254 foram desligados por critérios de economicidade. A gestão estimou que esta medida geraria uma economia anual de R$ 44 milhões apenas com a folha de pagamento.
Corte de “Não Trabalhadores”: O prefeito também afirmou que cerca de 1.300 trabalhadores estavam sendo identificados como pessoas que “não trabalham” ou que apareciam na folha de pagamento sem exercer atividades, e que seriam desligados.
Além dos cortes diretos, a Comurg reduziu drasticamente os cargos comissionados, de 532 para cerca de 102 (uma queda superior a 80%), e promoveu cortes de chefias e diretorias, gerando uma economia significativa na folha salarial total. A reestruturação também envolveu o recadastramento completo de servidores e auditoria de folha, identificando distorções de até R$ 15 milhões.
Para otimizar processos e combater a ineficiência, Mabel adotou medidas de modernização da gestão:
Contratação da Fundação Dom Cabral: O prefeito manifestou interesse em contratar a prestigiada Fundação Dom Cabral para treinar servidores e modernizar a administração da Comurg. A intenção é agilizar os processos, que, segundo Mabel, estavam estagnados há 30 anos, e garantir que a grande força de trabalho seja produtiva.
Reestruturação Interna: A Comurg aprovou um novo organograma de diretorias, enxugando a estrutura interna. O novo modelo foca em três diretorias principais (Administrativo-Financeira, Operacional e de Negócios e Inovação), em substituição às seis diretorias anteriores.
Conselho Consultivo: Foi aprovada a criação e nomeação dos integrantes do Conselho Consultivo, com membros de peso, incluindo representantes dos acionistas (como Ipasgo e Saneago) e da própria Prefeitura. Essa nova configuração busca trazer maior transparência e expertise técnica para a tomada de decisões estratégicas da companhia.
Abertura de Capital e Sociedade com Iniciativa Privada
Um dos objetivos mais audaciosos de Sandro Mabel é a busca por um novo modelo de sustentabilidade financeira que inclua a iniciativa privada. Embora tenha rejeitado a ideia de uma privatização total da companhia, Mabel planeja abrir o capital da Comurg por meio da venda de ações na bolsa de valores.
O prefeito apontou que o objetivo é transformar a companhia em uma sociedade de economia mista com sócios privados. A intenção é limpar as contas da Comurg e torná-la competitiva e autossuficiente, preparando-a para disputar grandes licitações e modernizar suas operações, revertendo a dependência do município até o prazo estipulado no Plano de Recuperação. A inclusão de sócios privados é vista como um caminho para injeção de capital, know-how de mercado e o fortalecimento da governança.
Limpa Gyn
A CEI da Limpa Gyn investiga contratos da coleta de lixo. Os principais avanços da comissão incluem a identificação de falhas graves na medição dos serviços, questionamentos sobre o pagamento baseado em pesagem imprecisa e denúncias de que caminhões poderiam estar descarregando terra limpa para inflar os valores pagos ao Consórcio Limpa Gyn.
A CEI também cobrou documentação, negou sigilo e ouviu testemunhas sobre a falta de fiscalização adequada no aterro sanitário. O objetivo é apurar a má execução do contrato e verificar a possibilidade de o consórcio ter que devolver dinheiro ao município.
As análises e descobertas da CEI da Limpa Gyn são cruciais para o plano de reestruturação da Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) idealizado por Mabel, por três motivos principais:
Redução de Custos e Reversão da Dependência Fiscal: O plano de Mabel visa reduzir o custo anual da Comurg e reverter sua dependência fiscal. As investigações da CEI podem, potencialmente, diminuir a fatia de mercado ou renegociar os termos do contrato com o Consórcio Limpa Gyn. Se a CEI comprovar o pagamento indevido por serviços não realizados ou por medições incorretas (como lixo inflado ou terra limpa), a recuperação desses valores (devolução de dinheiro) alivia o caixa da Prefeitura e fortalece a situação financeira do município para investir ou cobrir o passivo da Comurg.
Definição do Core Business da Comurg: O contrato da Limpa Gyn retirou grande parte dos serviços de coleta de lixo da Comurg. As descobertas sobre a ineficiência ou fraude neste contrato externo podem justificar, no futuro, a retomada de mais serviços pela Comurg ou, pelo menos, a redefinição clara das áreas de atuação da companhia municipal, tornando-a mais estratégica e produtiva, o que é um objetivo da reestruturação de Mabel.
Apoio Político e Transparência: Ao expor a má gestão ou irregularidades em um contrato milionário anterior, a CEI fornece uma base política sólida para as medidas impopulares de Mabel (cortes de pessoal, abertura de capital), justificando-as como necessárias para sanar a situação caótica da limpeza urbana e da Comurg. A transparência da CEI ajuda a legitimar a necessidade de uma reforma profunda.
Crédito da Imagem: Alex Malheiros/Secom/Arquivo