
A visita de Flávio e o choque de realidade em Goiás: a passagem de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pelo Palácio das Esmeraldas nesta quinta-feira (18) serviu menos para construir pontes e mais para escancarar quem manda no jogo em Goiás. Apesar do discurso protocolar sobre “alianças”, Ronaldo Caiado (União Brasil) deixou claro que não há negociação fora do roteiro já escrito: Daniel Vilela (MDB) é o candidato e ponto final.
A visita de Flávio e o choque de realidade em Goiás
A comitiva bolsonarista chegou dividida — e saiu menor. Gustavo Gayer, pré-candidato ao Senado, mostrou disposição para caber no figurino imposto pelo Palácio. Wilder Morais, por outro lado, insistiu em manter o projeto de disputar o governo, mesmo sabendo que isso equivale a peitar Caiado dentro da própria casa. Resultado: acordo travado e recado dado.
Caiado foi direto ao ponto ao afirmar que trabalhará intensamente para eleger Daniel. Em bom português, avisou que não haverá espaço — nem esforço — para quem atrapalhar esse plano. A candidatura de Wilder, nesse contexto, virou obstáculo, não ativo.
Flávio Bolsonaro voltou para Brasília com uma constatação incômoda: em Goiás, o bolsonarismo entra como convidado, não como anfitrião. Quem aceitar o papel de coadjuvante pode até garantir um lugar na foto. Quem insistir em protagonismo corre o risco de sair do enquadramento antes mesmo da campanha começar.
Nos relatos de bolsonaristas que acompanharam a agenda, Flávio Bolsonaro passou mais tempo ouvindo do que articulando. Falou pouco, mediu o ambiente e saiu repetindo o velho mantra da família: nada será decidido sem consultar Jair Bolsonaro. O “bater o martelo”, como sempre, ficou para depois — e longe de Goiás.
Apesar do conhecido grau de volatilidade das decisões na cúpula bolsonarista, aliados avaliam que o desfecho já está praticamente escrito. Diante do que foi colocado à mesa, a tendência é que a família Bolsonaro engula a aliança com Ronaldo Caiado. Não por entusiasmo, mas por falta de opção melhor. Política, afinal, também é sobre aceitar o possível quando o ideal já evaporou.
O interesse real do bolsonarismo no acordo é menos Goiás e mais Brasília. A prioridade é ampliar o número de cadeiras no Senado, transformando a Casa em linha de defesa política. Nos bastidores, ninguém disfarça: trata-se de montar uma retaguarda capaz de oferecer algum tipo de saída para a situação do ex-presidente, hoje preso na sede da Polícia Federal. O resto é discurso para consumo externo.
Depois da conversa com Caiado, Flávio seguiu para a sede estadual do PL, onde se reuniu com aliados para fazer o tradicional alinhamento pós-derrota parcial. O encontro serviu mais para explicar o cenário do que para celebrar avanços. A leitura interna é que o Palácio das Esmeraldas ditou as condições — e o bolsonarismo ouviu.
No fim das contas, a mensagem que ficou foi simples e incômoda: em Goiás, o bolsonarismo negocia de chapéu na mão. Pode até garantir espaço no Senado, desde que aceite jogar como coadjuvante. Qualquer tentativa de protagonismo, por ora, soa mais como blefe do que como estratégia.
Essa reconfiguração de forças, contudo, detona uma bomba-relógio no colo da base aliada tradicional. Isto porque ainda resta apenas uma cadeira ao Senado para acomodar um congestionamento de interesses. Partidos que sustentam a governabilidade de Caiado, e os que buscam compor uma chapa, agora se veem obrigados a recalcular a rota.
Figuras de peso que aguardavam a abertura dessa janela eleitoral e lideranças do próprio partido do governador, e demais partido da base, não aceitarão passivamente o papel de escada para o bolsonarismo. A eventual entrega da vaga ao PL pode ser vista como um pragmatismo necessário em Brasília, mas soa como traição nas bases locais que roeram o osso da gestão estadual.
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