Revisões em dados de emprego nos EUA acendem sinal de alerta entre economistas

As fortes revisões negativas nos números de emprego divulgados pelo Departamento de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos (BLS, na sigla em inglês) reacenderam o debate sobre a possibilidade de uma recessão na maior economia do mundo. O órgão cortou 258 mil postos de trabalho das estimativas preliminares de maio e junho, o que levou analistas a usar o termo “recessão” pela primeira vez em meses.
No centro do impasse está o relatório de empregos publicado no início de agosto, que acabou ofuscado pela demissão, pelo presidente Donald Trump, do funcionário responsável por sua elaboração. Mesmo assim, economistas avaliam que a deterioração do mercado de trabalho não pode ser ignorada.
Contratações em ritmo fraco
De janeiro a julho, a economia norte-americana gerou, em média, 85 mil postos por mês, bem abaixo dos 177 mil apurados em 2019, antes da pandemia. Nos últimos três meses, excluindo educação e saúde, houve perda líquida de vagas no setor privado, segundo Douglas Holtz-Eakin, ex-diretor do Escritório de Orçamento do Congresso durante o governo George W. Bush. “O mercado de trabalho está péssimo”, afirmou.
Risco de recessão ainda é tema de debate
O Escritório Nacional de Pesquisa Econômica (NBER), encarregado de reconhecer oficialmente períodos recessivos, monitora quatro grandes indicadores: gastos do consumidor, renda pessoal, produção industrial e emprego. Até agora, nenhum deles aponta de forma inequívoca para retração, mas o ajuste expressivo nos números do BLS passou a preocupar.
Robert Ruggirello, diretor de investimentos da Brave Eagle Wealth Management, reconhece que os dados de sexta-feira “são de nível recessivo”, embora ainda não indiquem que a contração esteja em curso. Ele explica que muitas empresas congelaram admissões e demissões à espera de maior clareza política e de um ambiente de negócios mais previsível.
Tarifas e incerteza pesam sobre empresas
Economistas atribuem parte da fraqueza ao impacto das tarifas comerciais impostas pelo governo Trump, que teriam aumentado custos e adiado investimentos. Keith Lerner, codiretor de investimentos da Truist, avalia que o Federal Reserve “provavelmente terá de reduzir as taxas de juros em breve”, pois o ritmo de contratações sugere uma economia mais fraca do que o banco central previa.
Chris Rupkey, economista-chefe da FwdBonds, acrescenta que medidas de imigração também influenciam: desde abril, 1,4 milhão de pessoas saíram da força de trabalho, 802 mil delas estrangeiras. Caso parte desse contingente tivesse relatado procura ativa por emprego, a taxa de desemprego, hoje em 4,2%, poderia ter chegado a 4,5%, calcula.

Imagem: REUTERS via cnnbrasil.com.br
Como funcionam as revisões do BLS
O BLS classifica seus números iniciais como preliminares, pois nem todas as empresas enviam dados dentro do prazo. Com mais informações, o órgão revê as estatísticas e aplica ajustes sazonais para suavizar oscilações mensais. Se os dados completos divergem muito das projeções, o impacto dos algoritmos de ajuste pode ampliar as revisões, como ocorreu em maio e junho.
Jan Hatzius, economista do Goldman Sachs, observa que outros indicadores de emprego — como vagas abertas e horas trabalhadas — já sinalizavam desaceleração, o que torna as revisões “coerentes com um crescimento abaixo do potencial”. O Bank of America considerou os cortes “inegavelmente preocupantes”, mas ressalvou que parte deles reflete a calibração de modelos sazonais.
Com melhor compreensão do ritmo real de contratações, a expectativa é que as revisões nos próximos meses sejam menos drásticas. Ainda assim, o episódio reforça a leitura de que a expansão econômica norte-americana perdeu força e aumenta a pressão sobre o Federal Reserve para agir.
Por enquanto, analistas aguardam os próximos relatórios de emprego e demais indicadores de atividade para avaliar se o alerta atual se transformará em recessão efetiva ou se a economia conseguirá retomar fôlego.
Com informações de CNN Brasil