Déficit fiscal e protecionismo dos EUA reacendem debate sobre futuro do dólar como moeda de reserva

A supremacia internacional do dólar volta a ser questionada diante do avanço dos déficits fiscais dos Estados Unidos e da adoção de barreiras comerciais que afetam o fluxo de bens e capitais no mundo. Ainda predominante em transações e reservas cambiais, a divisa é alvo de iniciativas de “desdolarização” lideradas por países emergentes e enfrenta o ceticismo de investidores que, cada vez mais, exigem prêmios altos para financiar a dívida norte-americana.
A discussão ganhou força depois que o serviço de notícias Broadcast consultou estrategistas de grandes bancos e ex-dirigentes do Federal Reserve (Fed). Todos reconheceram movimentos para reduzir a dependência do dólar – como a proposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de um sistema de pagamentos entre os Brics – mas destacaram que nenhuma alternativa conquistou a confiança do mercado.
Estruturas de sustentação sob pressão
Para Kit Juckes, estrategista-chefe de câmbio do Société Générale, o enfraquecimento das “âncoras” que sustentam o dólar lembra a trajetória recente da seleção brasileira de futebol: mesmo sem títulos mundiais há 20 anos, o time ainda impõe respeito. “O dólar é o futebol do Brasil no mercado de câmbio; ninguém acredita que ele ficará em baixa para sempre”, compara.
Entre essas âncoras, destacam-se a solidez fiscal dos EUA e a estabilidade de preços. Hoje, ambas dão sinais de desgaste. Agências de classificação de risco já retiraram o selo “triplo A” dos títulos soberanos, citando déficits persistentes. A inflação, embora em desaceleração, deixou de ser considerada totalmente ancorada.
Decisões políticas reforçam as dúvidas. No governo do presidente Joe Biden, a Casa Branca utilizou sanções financeiras para punir Rússia e China, ampliando o uso do dólar como ferramenta geopolítica. Segundo Juckes, esse expediente incentiva países a buscar rotas que contornem a moeda norte-americana. Já durante o mandato de Donald Trump, o aumento de tarifas sobre importações colocou em xeque o futuro da globalização, processo no qual o dólar sempre foi peça central.
Prêmio maior para financiar os EUA
A percepção de risco se reflete na curva de rendimentos dos Treasuries. Investidores pedem retornos mais altos, sobretudo em papéis de curto prazo, para compensar a deterioração fiscal. Mesmo assim, ex-autoridades do Fed avaliam que o dólar permanece sem rival imediato.
“É preciso haver uma alternativa”, lembra Loretta Mester, ex-presidente do Fed de Cleveland. “Qual seria o substituto para o dólar? E para os Treasuries?”
O euro já foi apontado como candidato. A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, defende seu “momento global” e contrasta a abertura comercial da União Europeia com o protecionismo norte-americano. Contudo, lacunas na integração do bloco e lembranças da crise da dívida europeia limitam o avanço da moeda única.

Imagem: REUTERS via cnnbrasil.com.br
Na Ásia, o yuan aproveita o tamanho da economia chinesa, mas o controle de capitais e o ambiente político de Pequim restringem seu alcance. Fora dessas duas opções, nenhuma outra divisa apresenta liquidez comparável.
Mercado decide o campeão
James Bullard, ex-presidente do Fed de St. Louis, afirma que a escolha da moeda de reserva não é imposta por governos, mas pelo mercado global. “Milhões de participantes decidem qual moeda usar e qual oferece mais liquidez”, diz. “Hoje, essa resposta ainda é o dólar.” Ele lembra que, ao longo da história, outras moedas já ocuparam o posto, como o florim holandês no século XVII e a libra esterlina no XIX.
A manutenção desse status, porém, traz custos. Segundo Juckes, o privilégio de emitir a principal moeda global reduz o preço do crédito para Washington, mas torna mais complexa a tarefa do Fed de calibrar a política monetária, pois uma forte demanda externa pode alterar os efeitos das decisões de juros. “É uma faca de dois gumes”, resume.
Apesar da queda do dólar no primeiro semestre, Axel Christensen, estrategista-chefe de investimentos para a América Latina da BlackRock, considera prematuro prever uma substituição. “Do ponto de vista de gestão de risco, o argumento é válido, mas estamos muito longe de ver o dólar desafiado em seu papel fundamental”, avalia.
Por ora, a moeda norte-americana segue no centro do comércio internacional e dos mercados financeiros, mesmo com pressões fiscais e políticas se acumulando sobre a economia dos Estados Unidos.
Com informações de CNN Brasil