Terras raras viram trunfo de Goiás na atração de capital estrangeiro
Estado concentra reservas essenciais para motores elétricos, ímãs e tecnologia militar. Entenda o impacto do mercado de minerais no PIB de Goiás

Terras raras viram trunfo de Goiás na atração de capital estrangeiro: o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD) cumpre agenda em Washington (EUA) com o objetivo de apresentar a investidores e autoridades americanas o potencial das reservas de terras raras do estado.
O movimento ocorre em meio à intensificação da disputa global por minerais estratégicos, utilizados na fabricação de ímãs de alta potência, motores elétricos, equipamentos para transição energética e tecnologias de defesa.
A estratégia do governo estadual é atrair capital estrangeiro, estimular a instalação de plantas de beneficiamento e inserir Goiás em cadeias globais de suprimento. A exploração desses ativos tende a provocar impactos relevantes na economia, com geração de empregos qualificados e dinamização de municípios como Minaçu, Nova Roma, Iporá e Catalão.
Terras raras viram trunfo de Goiás na atração de capital estrangeiro
Na esfera fiscal, a atividade mineral fortalece a arrecadação por meio da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM). Para terras raras, a alíquota é de 2%, sendo 60% destinados aos municípios produtores e 15% ao governo estadual.
O aumento da receita mineral contribui para elevar o PIB goiano e reduzir a dependência de transferências da União, auxiliando na diminuição do déficit fiscal em relação ao governo federal.

O infográfico acima ilustra a jornada completa das terras raras desde os depósitos minerais em Goiás até os produtos tecnológicos finais.
Reservas bilionárias colocam Goiás no centro da geopolítica mineral
As reservas de terras raras em Goiás estão concentradas nas regiões norte, nordeste, oeste e sudeste do estado, em diferentes estágios de desenvolvimento. Em Minaçu, o projeto Serra Verde já opera comercialmente, enquanto outras áreas avançam em pesquisa mineral ou estruturação industrial.
Em Minaçu, no norte goiano, o projeto Serra Verde foca na extração de neodímio, praseodímio, térbio e disprósio. A operação teve início em janeiro de 2024, com capacidade anual de 5.000 toneladas de óxidos de terras raras. Os investimentos somam US$ 300 milhões, com financiamento adicional de US$ 465 milhões obtido em 2025. O empreendimento emprega cerca de 400 pessoas, tem vida útil estimada em 25 anos e potencial de dobrar a produção até 2030.
No município de Nova Roma, no nordeste do estado, os depósitos são formados por argilas iônicas, o mesmo tipo explorado em larga escala na China. Essas argilas concentram neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, classificados como terras raras pesadas e críticas para aplicações magnéticas. Estimativas indicam potencial econômico superior a US$ 10 bilhões ao longo da vida útil dos projetos.
A Aclara Resources anunciou investimentos de R$ 2,8 bilhões na região e inaugurou, em 2025, uma planta piloto com capacidade para processar 250 toneladas de argilas iônicas. A meta é produzir concentrado com pureza superior a 95%. O diferencial estratégico está no menor impacto ambiental e na maior facilidade de processamento, o que coloca Nova Roma entre os maiores depósitos de argilas iônicas fora da Ásia, com relevância geopolítica direta.
No oeste goiano, em Iporá, as ocorrências estão associadas a complexos graníticos com argilas lateríticas, contendo principalmente lantânio, cério e neodímio, classificados como terras raras leves. A região encontra-se em fase de pesquisa mineral avançada. A Appia Rare Earths & Uranium estima investimentos totais de R$ 550 milhões, sendo R$ 50 milhões já aplicados desde 2018.
A área de prospecção em Iporá abrange 211 km² e apresentou teores superiores a 1.000 ppm de óxidos de terras raras totais (TREO), com intervalos de até 24 metros e concentrações entre 3,9% e 9,3% de TREO. Os estudos se estendem a municípios vizinhos, como Diorama e Israelândia, configurando um potencial polo regional no oeste do estado.
No sudeste goiano, Catalão abriga um complexo alcalino-carbonatítico com predominância de lantânio, cério e neodímio. As reservas são consideradas as segundas maiores do mundo, atrás apenas da China. O município já é referência internacional na produção de nióbio, operada pela CMOC, o que garante infraestrutura e expertise consolidadas para a ampliação da atividade mineral.
Um centro de excelência em pesquisas, com investimento de R$ 15 milhões do Governo de Goiás em parceria com a Universidade Federal de Catalão (UFCat), busca desenvolver tecnologia para a verticalização da cadeia produtiva de terras raras. Além desses elementos, o complexo mineral inclui fosfato e nióbio, ampliando o potencial de integração industrial.
No cenário internacional, projeções indicam que a receita bruta com a exportação e o beneficiamento de terras raras em Goiás pode atingir entre US$ 2 bilhões e US$ 5 bilhões anuais na próxima década. O mercado global busca no estado uma alternativa ao domínio da China, que controla cerca de 85% do processamento mundial desses minerais.
Os Estados Unidos lideram o interesse nas reservas goianas para estruturar uma cadeia de suprimentos fora da influência chinesa. Japão e União Europeia também monitoram os depósitos, de olho no abastecimento das indústrias automotivas e em projetos de descarbonização. A China acompanha o avanço do setor, avaliando possíveis aquisições ou parcerias tecnológicas.
O mercado global de terras raras vive forte valorização desde 2025. O neodímio atingiu 965 mil yuans por tonelada, com alta de 28% em um único mês. O óxido de ítrio registrou valorização próxima de 30 vezes após restrições chinesas, enquanto disprósio e térbio triplicaram de preço desde 2025. O lantânio saiu de cerca de US$ 4 por quilo para mais de US$ 150.
Em outubro de 2025, a China ampliou os controles de exportação sobre elementos pesados e tecnologias de processamento, reforçando restrições sobre produtos de uso dual. Atualmente, o país responde por cerca de 60% da produção mundial e quase 90% do refino, enquanto o Brasil detém a segunda maior reserva global. Projeções da Agência Internacional de Energia (IEA) e do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) indicam forte crescimento da demanda até 2030, impulsionada por veículos elétricos e energias renováveis.
Entre os desafios para Goiás estão a dependência tecnológica externa para o refino químico, a necessidade de verticalização da cadeia produtiva, os processos de licenciamento ambiental e limitações de infraestrutura em áreas remotas.
Em contrapartida, o interesse internacional cresce, com investimentos anunciados de US$ 2,17 bilhões para o período de 2025 a 2029. Estudos indicam que minerais críticos podem adicionar até R$ 243 bilhões ao PIB brasileiro.
A análise da cadeia de valor indica que Goiás ainda se encontra na etapa inicial de um ciclo econômico de alto potencial. Atualmente, o estado se posiciona majoritariamente como exportador de concentrados, comercializados por valores na casa de milhares de dólares por tonelada.
O maior ganho econômico, no entanto, está nas etapas posteriores da cadeia — separação química, refino e fabricação de ímãs e componentes tecnológicos —, nas quais o valor agregado pode alcançar centenas de milhares de dólares por tonelada, segmentos hoje amplamente dominados pela China.
Nesse contexto, a questão central deixa de ser apenas mineral e passa a ser estratégica: Goiás se limitará ao papel de fornecedor de matéria-prima ou avançará na construção de capacidade industrial capaz de capturar uma parcela maior do valor gerado pelas terras raras?
Com reservas geologicamente relevantes, investimentos crescentes em pesquisa e desenvolvimento e um ambiente geopolítico favorável — marcado pela busca global por diversificação de fornecedores —, o estado dispõe de uma janela histórica. A oportunidade é transformar Goiás não apenas em produtor de minério, mas em um polo industrial e tecnológico de terras raras, integrado às cadeias globais de alto valor agregado.