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Empresas antecipam planejamento tributário de olho nas mudanças de 2027

Transição para CBS e IBS transforma segundo semestre em período estratégico para revisar custos, créditos e estrutura fiscal.

A proximidade do fim do ano fiscal e o avanço da Reforma Tributária estão levando empresas brasileiras a antecipar decisões que tradicionalmente ficavam concentradas nos últimos meses do ano. Revisão do regime de tributação, aproveitamento de créditos, reorganização societária e adaptação de sistemas passaram a ocupar espaço maior no planejamento para 2027.

O movimento ocorre em um momento de transição do sistema tributário brasileiro. Em 2026, empresas já começaram a conviver com as primeiras obrigações relacionadas à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e ao Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), tributos criados pela Reforma Tributária do Consumo.

Com novas etapas previstas para 2027, decisões tomadas ainda neste segundo semestre podem afetar diretamente custos, fluxo de caixa e estratégias empresariais para o próximo ano.

Uma pesquisa realizada pela PwC Brasil em agosto de 2025 já indicava a dimensão do desafio. Segundo os dados citados pelo Jornal Empresas & Negócios, 83% das empresas consideravam a área fiscal como a mais impactada pela Reforma Tributária, enquanto 93% já envolviam a contabilidade no processo de adaptação.

Os números mostram que a mudança deixou de ser encarada apenas como uma questão do departamento fiscal.

Para muitas empresas, a reforma passou a exigir revisão de processos, contratos, sistemas tecnológicos, formação de preços e estratégias de negócio.

Planejar apenas em dezembro pode ser tarde

Historicamente, muitas empresas concentram a revisão tributária no encerramento do exercício fiscal. O problema é que determinadas decisões exigem análise e preparação anteriores.

Comparar diferentes regimes tributários, por exemplo, depende de informações reais sobre faturamento, margem, despesas, folha de pagamento e características das operações.

Quanto mais cedo esses dados forem avaliados, maior será a possibilidade de simular cenários antes de tomar uma decisão.

Entre os erros mais comuns estão escolher um regime tributário sem realizar comparações detalhadas, deixar de identificar créditos e incentivos fiscais disponíveis e concentrar em dezembro uma análise que deveria acompanhar continuamente a situação financeira e fiscal do negócio.

O planejamento antecipado também permite identificar riscos antes que eles se transformem em passivos.

Empresas que possuem diversas filiais, operações interestaduais, estruturas societárias mais complexas ou margens reduzidas tendem a ser ainda mais sensíveis aos efeitos da tributação.

Nesses casos, uma decisão inadequada pode comprometer o fluxo de caixa e interferir diretamente na capacidade de investimento e expansão.

Reforma muda a lógica das decisões

A Reforma Tributária acrescenta uma nova variável a esse planejamento.

A CBS e o IBS foram criados para substituir gradualmente parte dos tributos incidentes atualmente sobre o consumo. A transição começou em 2026 e continuará nos próximos anos.

Isso significa que empresas precisarão conviver temporariamente com regras do sistema atual e do novo modelo.

Em 2026, considerado período de testes, os documentos fiscais eletrônicos passaram a incorporar informações relacionadas à CBS e ao IBS conforme as regras estabelecidas para cada documento.

O período foi estruturado para permitir que empresas, contadores, desenvolvedores de software e administrações tributárias adaptem seus sistemas antes das etapas seguintes da reforma.

Em 2027, a transição ganha uma nova dimensão.

PIS e Cofins serão extintos, enquanto a CBS avançará no novo modelo. O Imposto Seletivo também entra em vigor.

A transição do ICMS e do ISS para o IBS ocorrerá posteriormente, de maneira gradual, entre 2029 e 2032. A previsão é que o novo sistema esteja integralmente implantado em 2033.

Esse calendário faz com que decisões empresariais tomadas hoje precisem considerar não apenas a legislação vigente, mas também os efeitos das mudanças previstas para os próximos anos.

Setembro traz decisão importante para pequenas empresas

Para microempresas e empresas de pequeno porte, o planejamento ganhou um componente imediato em setembro.

O prazo para solicitar ingresso no Simples Nacional para o ano-calendário de 2027 passou para setembro de 2026.

A janela começou em 1º de setembro e termina no dia 30.

Mesmo realizando a opção agora, o novo enquadramento produzirá efeitos a partir de 1º de janeiro de 2027.

Empresas optantes pelo Simples também precisam avaliar a forma como pretendem recolher CBS e IBS.

A Reforma Tributária criou a possibilidade de permanência no modelo integrado do Simples ou, conforme as regras aplicáveis, opção pelo regime regular dos novos tributos.

Essa escolha pode ter consequências importantes para empresas inseridas em cadeias nas quais a geração e a utilização de créditos tributários influenciam relações comerciais.

Por isso, a decisão não deve ser tomada apenas comparando alíquotas.

Perfil dos clientes, fornecedores, margens, possibilidade de aproveitamento de créditos e posição ocupada pela empresa na cadeia produtiva também precisam entrar na análise.

Créditos ganham importância no novo sistema

Um dos pilares do novo modelo é a não cumulatividade.

Na prática, a lógica dos créditos tributários tende a ganhar importância ainda maior nas decisões comerciais.

Empresas precisarão entender como os créditos serão gerados, utilizados e transferidos ao longo das cadeias de produção e prestação de serviços.

Isso pode afetar inclusive negociações entre fornecedores e clientes.

Uma empresa pode apresentar determinada carga tributária nominalmente menor e, ainda assim, ser comercialmente menos interessante para outra companhia caso sua operação não gere créditos nas mesmas condições de uma alternativa concorrente.

Por isso, o planejamento tributário passa a dialogar diretamente com política comercial, formação de preços e posicionamento competitivo.

Tecnologia se torna parte da estratégia tributária

A transformação também aumenta a importância dos sistemas de gestão.

A fiscalização brasileira já opera com grande quantidade de documentos eletrônicos e cruzamento automatizado de informações.

Com a implantação da CBS e do IBS, empresas precisam adaptar sistemas emissores, ERPs, plataformas contábeis e processos internos.

Em julho, Receita Federal e Comitê Gestor do IBS divulgaram um cronograma para implementação dos documentos fiscais eletrônicos relacionados à reforma.

O calendário considera justamente a necessidade de adequação dos sistemas e realização de testes antes do início das diferentes obrigações.

Nesse cenário, ferramentas capazes de cruzar informações fiscais e financeiras passam a ter papel ainda mais relevante.

A tecnologia permite comparar cenários tributários utilizando dados reais da operação, identificar padrões, localizar possíveis inconsistências e projetar os efeitos de diferentes decisões.

Isso reduz a dependência de análises baseadas apenas em estimativas.

Entretanto, ferramentas tecnológicas não substituem a avaliação contábil e jurídica.

A função dos sistemas é ampliar a capacidade de análise e fornecer informações mais precisas para que profissionais especializados tomem decisões dentro dos limites da legislação.

Planejamento tributário não significa simplesmente pagar menos

Outro ponto importante é diferenciar planejamento tributário de estratégias destinadas apenas à redução imediata dos impostos.

Uma decisão pode diminuir a carga tributária em determinado momento e, ao mesmo tempo, aumentar riscos jurídicos ou comprometer outras áreas da empresa.

O planejamento precisa avaliar sustentabilidade jurídica, impacto financeiro e consequências operacionais.

Isso inclui analisar possíveis créditos tributários, benefícios fiscais, reorganizações societárias e estruturas contratuais, sempre considerando a legislação aplicável.

A escolha do regime tributário também precisa ser revista sempre que mudanças relevantes ocorrerem no negócio.

Uma empresa que aumentou significativamente o faturamento, abriu filiais, mudou sua composição de custos ou entrou em novos mercados pode descobrir que a estrutura utilizada anteriormente deixou de ser a mais adequada.

Passivos fiscais também entram no radar

A revisão preventiva pode revelar ainda passivos acumulados ao longo dos anos.

Erros em declarações, aproveitamento inadequado de créditos ou divergências entre informações fiscais e contábeis podem resultar em cobranças futuras.

Com o avanço da fiscalização eletrônica, inconsistências podem ser identificadas por cruzamentos automatizados realizados pela administração tributária.

Por isso, revisar dados antes de uma fiscalização permite identificar problemas e avaliar mecanismos legais de regularização.

A gestão tributária deixa, assim, de ser uma atividade realizada apenas quando surge uma cobrança ou fiscalização e passa a funcionar como acompanhamento permanente da saúde financeira da empresa.

Reforma exige olhar além do departamento fiscal

Os efeitos da Reforma Tributária também ultrapassam a contabilidade.

Áreas comercial, financeira, jurídica, tecnológica e de compras podem ser diretamente afetadas.

Um contrato de longo prazo, por exemplo, pode atravessar diferentes etapas da transição tributária. Dependendo das cláusulas estabelecidas, mudanças na tributação podem alterar custos ou margens durante sua execução.

A formação dos preços também precisa ser revista.

Empresas deverão compreender como CBS e IBS afetam seus produtos e serviços, quais créditos poderão ser aproveitados e como essas mudanças serão refletidas nos valores cobrados dos clientes.

Até mesmo decisões sobre fornecedores podem mudar quando a geração de créditos passar a representar um componente importante da relação comercial.

Segundo semestre vira período estratégico

Com a Reforma Tributária avançando e 2027 cada vez mais próximo, o segundo semestre de 2026 deixa de ser apenas um período de preparação para o fechamento contábil.

Para muitas empresas, tornou-se uma janela estratégica para revisar a estrutura tributária antes que as próximas etapas do novo sistema entrem em vigor.

O processo envolve comparar regimes, analisar créditos, revisar contratos, testar sistemas, avaliar estruturas societárias e projetar os efeitos financeiros das mudanças.

Quanto mais complexa a operação, maior tende a ser a necessidade de antecipação.

O planejamento tributário passa, portanto, a fazer parte da estratégia empresarial.

Em vez de simplesmente calcular quanto será pago ao Fisco depois que as operações acontecerem, empresas começam a utilizar informações tributárias para decidir como estruturar investimentos, organizar operações, negociar contratos e planejar crescimento.

Com CBS e IBS avançando gradualmente até a implantação integral do novo sistema em 2033, essa análise tende a deixar de ser um exercício realizado apenas no fim do ano.

A Reforma Tributária transforma o planejamento fiscal em um processo contínuo — e, para muitas empresas, as decisões para 2027 já começaram.

Ralph Rangel

Ralph Rangel é especialista em tecnologia e educação, unindo formação em TI e MBA em Governança à expertise em neurociência e desenvolvimento infantil. Sua atuação foca na convergência entre inovação tecnológica e processos de aprendizagem para impulsionar o ensino contemporâneo
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