Hospital tinha soro antiofídico disponível, diz prefeitura após morte de paciente
José Carlos Bernardes de Campos morreu após ser atendido e liberado por hospital em Piracanjuba

A morte do trabalhador rural José Carlos Bernardes de Campos, de 56 anos, após ser picado por uma cascavel em Piracanjuba, no sul de Goiás, levou ao afastamento dos dois médicos responsáveis pelo atendimento prestado no Hospital Municipal Tuany Garcia. O caso provocou forte repercussão e abriu uma investigação administrativa sobre possível negligência médica no atendimento ao paciente.
Segundo informações divulgadas pela Prefeitura de Piracanjuba, José Carlos procurou atendimento médico após ser atacado pela cobra enquanto trabalhava na zona rural do município. De acordo com familiares, ele permaneceu em observação por cerca de quatro horas no hospital municipal e recebeu alta médica mesmo apresentando sintomas decorrentes do envenenamento.
Horas depois, já na residência de parentes, o estado de saúde do trabalhador piorou rapidamente. Conforme relatos da família, José Carlos passou a apresentar dificuldade para respirar e forte sensação de aperto no pescoço — sintomas compatíveis com agravamento do quadro provocado pelo veneno da cascavel. Ele retornou à unidade de saúde, mas sofreu uma parada respiratória e morreu.
Após a repercussão do caso, a Prefeitura de Piracanjuba anunciou o afastamento imediato dos médicos envolvidos no atendimento e informou a abertura de procedimento administrativo para apuração da conduta dos profissionais. Em nota oficial, a administração municipal reconheceu “indícios de negligência” no atendimento prestado ao paciente.
A prefeitura também comunicou oficialmente o caso ao Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego), ao Ministério Público de Goiás (MPGO) e à Vigilância Sanitária Estadual, ampliando o alcance das apurações sobre o ocorrido.
Na nota divulgada à imprensa, a Secretaria Municipal de Saúde manifestou “seu mais profundo pesar e solidariedade à família, amigos e à comunidade rural à qual pertencia o Sr. José Carlos Bernardes de Campos”. O comunicado também destacou que “toda conduta médica, tanto no primeiro quanto no segundo atendimento, é de inteira, exclusiva e indelegável responsabilidade dos profissionais médicos que efetivamente realizaram o atendimento”.
Um dos principais pontos levantados pela investigação envolve a utilização do soro antiofídico. A prefeitura afirmou que o Hospital Municipal Tuany Garcia possuía estoque disponível de todos os imunobiológicos necessários para tratamento de acidentes com serpentes, incluindo soros antibotrópico, anticrotálico, antielapídico e antibotrópico-crotálico.
Segundo o comunicado oficial, “em nenhum momento houve desabastecimento, falta, vencimento ou indisponibilidade do referido insumo”. A administração municipal ressaltou ainda que eventual ausência de aplicação do soro “não decorreu, em hipótese alguma, de falha de suprimento”, atribuindo a decisão à avaliação clínica realizada pelos profissionais responsáveis pelo atendimento.
O caso reacendeu debates sobre protocolos médicos relacionados a acidentes ofídicos, especialmente em cidades do interior e áreas rurais, onde ataques de serpentes ainda representam risco significativo à população. Especialistas explicam que acidentes envolvendo cascavéis exigem atendimento rápido e monitoramento rigoroso, já que o veneno possui ação neurotóxica capaz de comprometer funções respiratórias e musculares.
Segundo o Ministério da Saúde, sintomas provocados pela picada de cascavel podem incluir visão turva, dificuldade respiratória, dores musculares, paralisia progressiva e insuficiência respiratória em casos graves. A administração precoce do soro anticrotálico costuma ser considerada essencial para neutralização do veneno e redução dos riscos de complicações fatais.
Especialistas em toxicologia afirmam que o tempo entre a picada e o início do tratamento é um dos fatores mais importantes para aumentar as chances de recuperação do paciente. Também ressaltam que sintomas podem evoluir de forma gradual, exigindo observação clínica cuidadosa mesmo quando há aparente estabilidade inicial.
O caso em Piracanjuba também trouxe à tona discussões sobre responsabilidade médica e protocolos hospitalares em unidades municipais de saúde. Em situações envolvendo suspeita de negligência, órgãos de fiscalização médica costumam analisar prontuários, decisões clínicas adotadas, tempo de observação, disponibilidade de medicamentos e adequação do atendimento prestado.
A Prefeitura de Piracanjuba informou que seguirá colaborando com as investigações e garantiu apoio à família da vítima, incluindo acolhimento psicossocial e acesso à documentação clínica necessária, respeitando o sigilo médico e as normas da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
O Conselho Regional de Medicina deverá avaliar se houve eventual descumprimento de normas técnicas ou éticas durante o atendimento. Dependendo das conclusões, os profissionais poderão responder a procedimentos administrativos e ético-disciplinares.
Enquanto isso, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que conduzirá o procedimento administrativo “com absoluta imparcialidade, rigor técnico, respeito ao devido processo legal e plena transparência”.
Casos envolvendo acidentes com serpentes continuam relativamente frequentes em regiões rurais brasileiras. Dados do Ministério da Saúde apontam milhares de ocorrências anuais relacionadas a picadas de cobras, escorpiões e outros animais peçonhentos, especialmente em áreas agrícolas e municípios do interior.
Em Goiás, hospitais de referência e unidades municipais costumam receber treinamentos e estoques específicos de soros antiofídicos devido à incidência de acidentes com serpentes em regiões rurais do estado. Especialistas reforçam que qualquer suspeita de picada venenosa deve receber avaliação médica imediata e acompanhamento contínuo.
A morte de José Carlos Bernardes de Campos gerou forte comoção em Piracanjuba e na comunidade rural onde vivia. Nas redes sociais, moradores e familiares passaram a cobrar esclarecimentos sobre o atendimento recebido e responsabilização caso sejam confirmadas falhas médicas no caso.