
O mercado de comunicação no Centro-Oeste brasileiro passa por uma das maiores transformações de sua história recente após a confirmação da venda do Grupo Jaime Câmara para a Rede Matogrossense de Comunicação (RMC), empresa ligada ao Grupo Zahran e afiliada da TV Globo nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A negociação envolve alguns dos principais veículos de imprensa de Goiás e Tocantins, incluindo a TV Anhanguera, os jornais O Popular e Daqui, além de emissoras de rádio e plataformas digitais.
O anúncio oficial foi divulgado pelo próprio Grupo Jaime Câmara, conglomerado que há décadas ocupa posição dominante no mercado de mídia goiano, a empresa informou que o controle acionário foi transferido para a Rede Matogrossense de Comunicação, ampliando significativamente a presença do Grupo Zahran no setor de comunicação regional.
A venda representa o encerramento de um ciclo histórico iniciado ainda na década de 1930. Fundado oficialmente em 1937, o Grupo Jaime Câmara construiu ao longo de quase nove décadas uma das estruturas de mídia mais influentes do Centro-Oeste brasileiro. Entre seus ativos estão emissoras afiliadas da Globo, rádios, jornais impressos, portais de internet e operações de comunicação em Goiás e Tocantins.
Pertencem ao grupo veículos tradicionais como a TV Anhanguera Goiânia e suas afiliadas regionais em cidades do interior goiano, além do jornal O Popular, considerado historicamente um dos mais importantes periódicos do estado. Também fazem parte do conglomerado as rádios CBN Goiânia, Executiva FM, Moov FM e outros veículos de mídia regional.
Em comunicado divulgado após a conclusão da negociação, Jaime Câmara Júnior agradeceu a confiança da sociedade, dos colaboradores e dos clientes ao longo da trajetória da empresa. “Confiamos que terão o mesmo cuidado que sempre tivemos em nossas atividades”, afirmou o empresário ao comentar a escolha dos novos controladores do grupo.
A Rede Matogrossense de Comunicação já possui longa parceria com a TV Globo nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Com a incorporação das operações goianas e tocantinenses do Grupo Jaime Câmara, o conglomerado passa a formar a maior rede afiliada da Globo no país em alcance regional.
Em nota oficial, os novos controladores destacaram o peso estratégico da união entre as operações. “A união de sua operação atual nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul com os estados de Goiás e Tocantins constituirá a maior rede afiliada de comunicação do país”, informou o comunicado divulgado pelas empresas.
Embora os valores oficiais da negociação não tenham sido divulgados publicamente, informações de bastidores apontam que o negócio pode envolver cifras bilionárias. Reportagens publicadas pela imprensa especializada afirmam que o montante discutido teria variado entre R$ 700 milhões e R$ 1 bilhão, considerando não apenas os veículos de comunicação, mas também imóveis e ativos imobiliários ligados ao grupo.
As negociações entre o Grupo Jaime Câmara e o Grupo Zahran não são recentes. Tentativas de venda já haviam sido discutidas em 2018, mas divergências internas e questões relacionadas à continuidade dos ativos teriam dificultado o fechamento do acordo naquele momento.
Nos bastidores do setor, analistas avaliam que fatores econômicos e tecnológicos contribuíram para a decisão da família Câmara de vender o conglomerado. O mercado tradicional de mídia vem enfrentando profundas mudanças provocadas pela digitalização da comunicação, queda das receitas publicitárias tradicionais e necessidade crescente de investimentos tecnológicos em televisão, streaming e plataformas digitais.
Especialistas afirmam que manter uma afiliada da Globo atualizada tecnologicamente exige investimentos contínuos em infraestrutura, produção, transmissão e equipamentos de alta performance. Em um cenário de transformação acelerada do consumo de informação, grupos regionais de comunicação passaram a enfrentar desafios cada vez maiores para sustentar estruturas tradicionais de mídia.
A TV Anhanguera, principal ativo televisivo do grupo, possui longa história em Goiás. A emissora entrou no ar em 1963 e tornou-se afiliada da Globo em 1968, consolidando-se ao longo das décadas como uma das principais referências de jornalismo e entretenimento da região Centro-Oeste.
Com o passar dos anos, a Rede Anhanguera expandiu sua atuação para diferentes cidades goianas, incluindo Anápolis, Rio Verde, Catalão, Itumbiara, Luziânia, Jataí e Porangatu, além de operações no Tocantins. A estrutura permitiu ao grupo construir forte capilaridade regional e liderança no mercado local de televisão aberta.
O Grupo Zahran, controlador da Rede Matogrossense de Comunicação, também possui forte atuação empresarial fora da área de mídia. O conglomerado é ligado a negócios do setor de gás e energia, incluindo operações da Copagaz e Liquigás, consideradas importantes distribuidoras de gás liquefeito de petróleo no país.
A aquisição do Grupo Jaime Câmara é vista como movimento estratégico para fortalecimento da presença regional da RMC e ampliação de sua relevância nacional junto à própria Globo. A integração das operações de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Tocantins cria um corredor de comunicação regional com forte alcance populacional e comercial no Centro-Oeste brasileiro.
A mudança também levanta questionamentos sobre o futuro de veículos impressos tradicionais como O Popular. Especialistas do setor avaliam que jornais impressos enfrentam desafios crescentes diante da migração do público para plataformas digitais e redes sociais. Nos bastidores, especula-se que parte das operações poderá passar por modernizações e reorganizações estratégicas nos próximos anos.
Apesar das especulações, até o momento os novos controladores não anunciaram mudanças estruturais relevantes nas operações editoriais ou no quadro de funcionários. Também não houve confirmação oficial sobre possíveis alterações em linhas editoriais, integração de redações ou mudanças operacionais nos veículos adquiridos.
Para analistas do mercado, a venda simboliza o fim de uma era na comunicação goiana. O Grupo Jaime Câmara construiu sua trajetória acompanhando praticamente toda a consolidação política, econômica e cultural do estado de Goiás ao longo do século XX e início do século XXI. Seus jornais, rádios e emissoras de televisão participaram diretamente da cobertura de alguns dos principais acontecimentos históricos regionais.
A negociação também reflete um movimento mais amplo observado no mercado brasileiro de mídia, marcado pela concentração de operações, fortalecimento de grandes conglomerados regionais e busca por escala diante das transformações tecnológicas da comunicação digital.
Especialistas apontam que os próximos anos deverão redefinir o papel das afiliadas regionais de televisão, especialmente em um cenário cada vez mais dominado por plataformas digitais, inteligência artificial, streaming e consumo fragmentado de conteúdo. Nesse contexto, grupos com maior capacidade de investimento tendem a assumir protagonismo na adaptação tecnológica do setor.
Enquanto isso, a venda do Grupo Jaime Câmara permanece como um dos acontecimentos mais relevantes da comunicação brasileira em 2026, marcando uma profunda mudança no controle de um dos maiores conglomerados de mídia do Centro-Oeste.
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