Mãe e filho são condenados a quase 70 anos por morte de estudante em Anápolis
Júri condena mãe e filho por assassinato de adolescente na porta de escola
Maria Renata de Merces Rodrigues e o filho dela, Kaio Rodrigues Matos, foram condenados pela morte do estudante Nicollas Lima Serafim, de 14 anos, em Anápolis, a 55 quilômetros de Goiânia. Juntos, os dois receberam penas que somam quase 70 anos de prisão, também em razão de duas tentativas de homicídio. O caso teve grande repercussão pela violência da ocorrência e pelo fato de o crime ter acontecido na porta de uma escola, após uma briga iniciada no ambiente virtual. As defesas informaram que vão recorrer da decisão.
O crime ocorreu em 20 de fevereiro de 2024. Imagens de câmeras de segurança registraram a movimentação e a briga na saída da escola, cenário em que Nicollas foi morto. Na época, além do adolescente que morreu, outros dois estudantes, de 12 e 15 anos, também ficaram feridos. O episódio aprofundou o debate sobre violência envolvendo adolescentes e sobre conflitos que começam nas redes sociais e terminam de forma trágica no espaço escolar.
A defesa de Maria Renata, feita pelos advogados Saulo Silva e Hélio Aquino, afirmou que considerou o julgamento justo do ponto de vista processual, mas discordou do entendimento adotado pelo júri. Segundo os advogados, a decisão contrariou a tese sustentada durante o julgamento. A defesa também argumenta que há pontos na dosimetria da pena que precisam ser revistos e, por isso, apresentará recurso para tentar reduzir ou redimensionar a punição imposta.
Já a defesa de Kaio Rodrigues, representada pelo advogado Victor José, também contesta a fixação da pena. Segundo ele, existem circunstâncias relevantes que não teriam sido devidamente consideradas no cálculo da condenação, especialmente no que se refere à dosimetria. Assim como a defesa da mãe, a de Kaio sustenta que a sentença pode ser revista em instâncias superiores, o que deve manter o caso em discussão no Judiciário.
De acordo com a versão apresentada pela defesa de Maria Renata, o conflito teria começado no dia anterior ao crime, quando Kaio participou de uma live na internet em que discutiu com um dos estudantes que depois sobreviveu ao ataque. Ainda segundo essa versão, o aluno teria ameaçado o irmão mais novo de Kaio, que também era estudante da escola. A partir daí, a discussão teria saído do ambiente virtual e migrado para troca de mensagens, com a marcação de um confronto presencial.
Segundo o relato do advogado Saulo Silva, Kaio entrou na transmissão ao vivo para defender o irmão depois que surgiram ameaças. Após o encerramento da live, a troca de provocações teria continuado por mensagens privadas, até que a briga fosse combinada. A narrativa busca situar a origem do conflito em uma escalada anterior ao dia do crime, apontando que o episódio não teria surgido de forma repentina, mas como desdobramento de uma tensão já instalada entre os envolvidos.
A defesa de Kaio, por sua vez, afirma que ele não discutiu diretamente com Nicollas pela internet. Segundo essa versão, o adolescente morto era amigo de um dos estudantes esfaqueados e estava na porta do colégio quando a confusão começou. Esse ponto é central para a estratégia da defesa, porque tenta diferenciar a participação de Nicollas no contexto da briga marcada e discutir a dinâmica exata de como os fatos se desenrolaram no local.
No caso de Maria Renata, a defesa argumenta que ela foi buscar o filho na escola e encontrou uma aglomeração na entrada do colégio, onde a briga teria sido previamente combinada. A versão apresentada sustenta que, ao perceber a tensão e as supostas ameaças contra os filhos, ela decidiu intervir. Segundo o advogado, a intenção inicial seria intimidar os adolescentes envolvidos e retirar o filho da situação, mas o confronto teria saído do controle em poucos instantes.
Conforme o relato da defesa, Maria Renata conseguiu colocar Kaio no carro e, ao perceber a permanência da hostilidade, resolveu parar o veículo para tentar conter a situação. Nesse momento, segundo o advogado, Nicollas e outra vítima teriam reagido de forma intimidatória, o que teria agravado ainda mais o cenário. Foi a partir daí, segundo essa narrativa, que a ocorrência tomou proporções fatais e terminou com a morte do estudante e com outros dois adolescentes feridos.
A condenação de mãe e filho encerra uma etapa judicial importante, mas não põe fim à controvérsia em torno do caso. Com os recursos já anunciados, a discussão deve avançar sobre a dosimetria das penas e sobre o enquadramento das condutas atribuídas a cada um. Ao mesmo tempo, o episódio permanece como um retrato extremo de como conflitos juvenis, potencializados pela internet, podem escapar completamente ao controle e terminar em violência letal diante de uma escola.