Contas de Goiás deixam mais de R$ 100 bilhões em pressões para o próximo governo
Soma ilustrativa de despesas, déficit previdenciário, renúncias fiscais, precatórios e outros compromissos revela o tamanho da equação que será administrada pelo governador eleito em 2026

As contas do Estado de Goiás revelam uma equação financeira que deverá pesar sobre o próximo governo. Quando são colocados lado a lado os principais blocos de despesas, passivos, renúncias fiscais e compromissos identificados pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-GO), a dimensão ultrapassa a marca de R$ 100 bilhões. Não significa que exista um cheque de R$ 100 bilhões a ser pago imediatamente, mas que o próximo governador assumirá uma estrutura fiscal na qual dezenas de bilhões de reais já estão comprometidos ou submetidos a pressões que reduzem a margem para novos investimentos e políticas públicas.
O maior peso está na própria máquina pública. Em 2025, a despesa bruta com pessoal chegou a R$ 27,731 bilhões, equivalente a 61,14% da Receita Corrente Líquida. O TCE também identificou R$ 5,021 bilhões em despesas excluídas do cálculo da despesa líquida com pessoal para fins dos limites da LRF, envolvendo decisões judiciais, despesas de exercícios anteriores e gastos previdenciários custeados com recursos vinculados. O Tribunal deixa claro que essas exclusões seguem a metodologia fiscal aplicável e, portanto, não devem ser tratadas simplesmente como irregularidades. Ainda assim, do ponto de vista político e financeiro, mostram o tamanho da estrutura que o Estado precisa sustentar.
O dado sobre pessoal é especialmente importante porque se trata de uma despesa com forte característica de rigidez. Salários, encargos e demais compromissos relacionados à estrutura do funcionalismo não podem ser reduzidos rapidamente sem medidas administrativas, legais e políticas de grande impacto. Isso significa que uma parcela expressiva da receita corrente do Estado já chega ao orçamento futuro com pouca possibilidade de redirecionamento.
A Previdência é talvez o problema estrutural mais difícil. Em 2025, o Tesouro estadual desembolsou R$ 7,565 bilhões para o sistema previdenciário, dos quais R$ 5,856 bilhões foram destinados à cobertura do déficit e R$ 1,710 bilhão às contribuições patronais. O déficit previdenciário chegou a R$ 5,552 bilhões, enquanto os aportes do Tesouro alcançaram R$ 5,668 bilhões. No sistema dos militares, a insuficiência financeira foi de R$ 1,866 bilhão e o déficit atuarial projetado chegou a R$ 53,990 bilhões. É esse último número que transforma a Previdência em uma questão de décadas, e não apenas de um exercício financeiro.
O déficit atuarial militar, por sua própria natureza, não significa que R$ 53,990 bilhões tenham de ser desembolsados de uma única vez. Trata-se de uma projeção de insuficiência futura do sistema. Mas o tamanho do número revela a dimensão da pressão que continuará existindo sobre as contas estaduais e que poderá limitar sucessivos governos. É uma herança que ultrapassa o calendário eleitoral de 2026 e alcança administrações que ainda sequer começaram.
Há ainda o problema da receita que deixa de entrar nos cofres estaduais. Em 2025, Goiás concedeu R$ 16,350 bilhões em renúncias fiscais, equivalente a 37,92% da receita tributária bruta e a 60,08% da receita tributária líquida. Embora o valor tenha caído 7,61% em relação aos R$ 17,697 bilhões de 2024, a renúncia cresceu 21,16% entre 2023 e 2025. O dado é particularmente relevante para o próximo governador porque qualquer tentativa de ampliar o espaço fiscal terá de enfrentar a discussão sobre benefícios tributários, incentivos econômicos e quanto da arrecadação potencial continuará sendo aberta mão pelo Estado.
A renúncia fiscal acrescenta uma dificuldade diferente à equação. Não se trata de uma despesa contabilizada da mesma maneira que salários ou aposentadorias, mas de receita potencial que deixa de ser arrecadada em razão de políticas de incentivo e benefícios tributários. Para o próximo governo, rever esse modelo significaria enfrentar interesses econômicos, setores produtivos e compromissos já estabelecidos, tornando a discussão fiscal também uma questão política de grande dimensão.
Na frente judicial, a situação também exige atenção. O estoque de precatórios chegava a R$ 1,227 bilhão ao final de 2025, mesmo depois de o Tesouro transferir R$ 748,278 milhões para esses pagamentos. O próprio TCE observou que, apesar das amortizações, o estoque caiu apenas R$ 131,325 milhões no exercício. Além disso, o serviço da dívida consumiu R$ 2,424 bilhões em 2025, incluindo amortizações, juros e precatórios. Ou seja, parte relevante do dinheiro público continuará sendo direcionada para obrigações constituídas no passado, antes de chegar às prioridades do novo governo.
A isso se soma uma série de problemas de gestão que podem representar pressão adicional sobre o erário. O TCE identificou R$ 1,276 bilhão em recursos de convênios sob risco de prescrição ou já prescritos, ressaltando que o valor pode ser ainda maior porque a deficiência de gestão impede uma mensuração precisa. O problema, segundo o relatório, se prolonga há mais de uma década. Em paralelo, foram encontradas 1.996 contas bancárias ativas não registradas no sistema contábil ou não informadas nas prestações de contas, além de R$ 939,639 milhões movimentados fora dos arquivos oficiais de pagamento.
Esses apontamentos acrescentam uma dimensão de controle à discussão fiscal. Mesmo quando determinados valores não representam uma dívida imediata do Estado, falhas de acompanhamento, registros incompletos e recursos sujeitos a prescrição podem reduzir a capacidade da administração de recuperar valores, controlar despesas e planejar o orçamento com precisão. Para um governo que assumirá compromissos já elevados, a qualidade da gestão financeira passa a ser tão importante quanto o volume da arrecadação.
Quando esses grandes números são colocados numa mesma fotografia — R$ 27,7 bilhões de despesa com pessoal, R$ 5,7 bilhões de aportes previdenciários, R$ 53,99 bilhões de déficit atuarial militar, R$ 16,35 bilhões de renúncias fiscais, R$ 1,23 bilhão em precatórios e mais de R$ 1,27 bilhão em recursos de convênios sob risco — chega-se a uma ordem de grandeza superior a R$ 106 bilhões. Esse cálculo, porém, deve ser apresentado como uma soma ilustrativa de diferentes pressões fiscais, e não como um passivo consolidado. São grandezas de naturezas distintas: algumas são despesas anuais, outras são perdas de receita, outras são riscos e outras representam compromissos de longo prazo. A força jornalística está justamente em mostrar a dimensão da equação que o próximo governador terá de administrar.
O cenário ganha ainda mais relevância porque o próximo governo não terá liberdade para simplesmente redirecionar todo o orçamento para novas prioridades. Antes de ampliar investimentos, criar programas ou aumentar a capacidade de atendimento em áreas como saúde, educação, segurança e infraestrutura, será necessário preservar recursos para despesas obrigatórias e compromissos acumulados. A margem de decisão política do próximo governador estará, portanto, condicionada por uma estrutura fiscal construída ao longo de anos.
E há uma contradição importante que torna o cenário ainda mais interessante eleitoralmente: Goiás não está quebrado. O próprio TCE classificou o resultado de 2025 como um “desequilíbrio aparente”, em razão principalmente da utilização de recursos acumulados em anos anteriores. O Estado encerrou o exercício com R$ 10,342 bilhões de disponibilidade de caixa líquida e relação entre dívida consolidada líquida e receita corrente líquida de 33,47%, muito abaixo do limite legal de 200%. O Tribunal, inclusive, emitiu parecer prévio favorável à aprovação das contas de 2025 e afirmou que o Estado preservou capacidade de financiar políticas públicas e investimentos.
É justamente aí que está o desafio para o próximo governador: não necessariamente assumir um Estado sem dinheiro, mas assumir um Estado no qual uma parcela expressiva dos recursos já está comprometida com pessoal, Previdência, dívida, precatórios e outras obrigações, enquanto bilhões de reais deixam de entrar por meio de benefícios fiscais e permanecem problemas de gestão e controle. Em 2025, o Estado ainda registrou R$ 5,304 bilhões de déficit orçamentário e utilizou R$ 9,689 bilhões de superávits financeiros acumulados para financiar despesas, investimentos e passivos.
A fotografia deixada pelas contas de 2025, portanto, é mais complexa do que a simples existência ou não de dinheiro em caixa. O próximo governo herdará uma estrutura fiscal que reúne mais de R$ 100 bilhões em diferentes formas de pressão, ainda que esses valores não possam ser classificados como uma única dívida. O desafio estará em administrar despesas rígidas, compromissos previdenciários de longo prazo, renúncias de receita, obrigações judiciais e problemas de controle sem comprometer a capacidade de investimento do Estado. É uma equação que poderá determinar o espaço político e financeiro da próxima administração desde o primeiro dia de governo.