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Governo entrega à Economia controle ampliado sobre R$ 3,19 bilhões do orçamento

Pasta poderá atualizar montantes automaticamente, alterar ações por portaria e criar grupo de avaliação de despesas

O Decreto nº 10.900, publicado em 30 de abril de 2026, altera o modelo de execução orçamentária do Estado ao ampliar o poder da Secretaria da Economia sobre os limites de empenho e pagamento. Na prática, o texto fortalece a pasta como centro de liberação, reorganização e controle das despesas públicas. Mais do que uma mudança técnica, a medida tem efeito político, porque concentra ainda mais no núcleo econômico a decisão sobre o ritmo do gasto estatal.

Uma das principais alterações está no novo § 1º do art. 2º, que permite atualização automática dos montantes dos Anexos I e II em duas situações: abertura de créditos adicionais acima dos valores previstos e desbloqueio de dotações dentro da mesma unidade. Com isso, os limites deixam de funcionar como travas fixas e passam a se ajustar ao longo do exercício. O ganho é de agilidade administrativa, mas o custo pode ser a redução da previsibilidade sobre o tamanho real da execução orçamentária.

Outra mudança relevante está no novo § 2º do art. 2º, que autoriza a Secretaria da Economia a alterar, por portaria, os montantes das ações orçamentárias do Anexo II, desde que respeitadas as metas fiscais. Embora a medida pareça apenas administrativa, ela amplia o poder da pasta para redistribuir recursos entre ações sem necessidade de novo decreto. Isso reforça a capacidade de intervenção sobre prioridades, cronogramas e sustentação financeira de políticas públicas.

O decreto também cria um novo mecanismo de monitoramento interno das despesas. O art. 8º-A autoriza a Economia a instituir grupo de trabalho para avaliar gastos de órgãos, fundos, entidades e empresas estatais dependentes. Esse grupo terá regras definidas pela própria pasta e poderá requisitar análises, dados e informações para subsidiar decisões sobre limites de empenho e pagamento. Na prática, o governo institui uma estrutura centralizada de vigilância permanente sobre o gasto público.

As mudanças não são pontuais. O decreto substitui integralmente os Anexos I, II, III e IV da norma anterior e ainda revoga o art. 8º do texto de janeiro. Isso mostra que o governo refez a engenharia de controle da execução orçamentária de 2026. A Secretaria da Economia passa a atuar não só como guardiã das metas fiscais, mas como instância com poder ampliado para medir, filtrar, redistribuir e condicionar a circulação dos recursos do Estado.

Os números anexados ao decreto ajudam a dimensionar essa concentração. No quadro consolidado de limites de empenho, o Gabinete do Secretário da Economia aparece com R$ 299,7 milhões. Ao redor dele, estão áreas de grande peso fiscal, como Encargos Financeiros do Estado, com R$ 397,4 milhões; Encargos Gerais do Estado, com R$ 555,1 milhões; e Encargos Especiais, com R$ 1,945 bilhão. Os valores mostram a escala do poder concentrado em estruturas que influenciam diretamente o pulso financeiro do governo.

O alcance político do decreto também aparece em áreas sensíveis. No Anexo II, a Secretaria de Relações Institucionais reúne R$ 105,1 milhões para integração interfederativa, R$ 167,3 milhões para emendas parlamentares estaduais impositivas, R$ 2,652 milhões para fomento e parcerias e R$ 4 milhões para gestão e manutenção. Com a possibilidade de alteração por portaria, a disputa por prioridade orçamentária passa a envolver, ainda mais, o jogo de influência dentro do governo.

As cotas trimestrais de pagamento reforçam essa leitura. Na Comunicação, o limite de pagamento soma R$ 55,2 milhões, com distribuição robusta ao longo do ano. Na Agência Brasil Central, o total é de R$ 25,19 milhões, também mantido em fluxo contínuo. Isso indica que o discurso de controle fiscal não produz freio uniforme para todas as áreas, já que setores estratégicos de imagem e comunicação seguem com espaço relevante dentro da programação financeira.

No conjunto, o Decreto nº 10.900 combina atualização automática de montantes, poder de remanejamento por portaria, criação de grupo técnico de fiscalização e substituição integral dos anexos de execução. O governo apresenta a medida como racionalização da gestão. Mas, na prática, o decreto reforça a centralização e amplia a capacidade da Secretaria da Economia de decidir quais ações avançam, quais aguardam e quais terão sustentação política e financeira ao longo de 2026.

Thales Bruno

Thales Bruno é jornalista com atuação em gestão de Órgãos Públicos e acontecimentos em Anápolis (GO)
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