O conflito armado no Sudão completou quatro anos desde sábado (15) de abril e transformou-se em uma crise humanitária de grande escala reconhecida por organismos internacionais. A visibilidade internacional variou diante de outras crises regionais e o conflito recebeu atenção irregular apesar do aumento de vítimas e do agravamento das condições de sobrevivência da população.
O confronto principal opõe o Exército, sob o comando do general Abdel Fattah al-Burhan, e uma força paramilitar conhecida como Forças de Apoio Rápido liderada por Mohamed Hamdan Dagalo. Os dois líderes haviam cooperado em 2019 para depor Omar al-Bashir e o rompimento posterior ocorreu por discordâncias sobre o processo de transição e a integração das tropas.
Os combates começaram em larga escala no sábado (15) de abril de 2023 e, em seguida, diversas milícias locais se engajaram alinhadas a um ou outro dos beligerantes. Intervenções e apoio externos foram reportados por várias fontes e envolveram países do Golfo e potências regionais que forneceram assistência logística, financeira e material a diferentes facções.
Pesquisadores das Nações Unidas e legisladores internacionais indicaram transferência de equipamentos via Estados do Golfo para as forças paramilitares, acusação que é negada por algumas autoridades envolvidas. Ao mesmo tempo o Exército recebeu apoio político e material de diferentes parceiros regionais, com intensidades variantes e interesses estratégicos contrapostos na região do Chifre da África.
No terreno as forças paramilitares consolidaram o controle sobre grande parte de Darfur e iniciaram a construção de estruturas administrativas paralelas em áreas urbanas e rurais. O Exército manteve presença mais forte na metade oriental do país e os combates se deslocaram para Kordofã e a fronteira com a Etiópia, ampliando as frentes de conflito.
A guerra aérea, com emprego crescente de aeronaves não tripuladas, alterou a dinâmica do confronto e reduziu a vantagem tradicional de controle aéreo atribuída ao Exército. Além dos ataques diretos a alvos militares os bombardeios e disparos com drones elevaram o custo civil do conflito com centenas de vítimas e infraestrutura destruída.
Organizações humanitárias estimam que quase três quartos da população necessitam de assistência imediata e que milhões de pessoas foram deslocadas internamente ou buscaram refúgio em países vizinhos. Bloqueios de suprimentos e obstáculos administrativos impostos por atores militares prejudicaram o acesso de ajuda e agravaram o risco de insegurança alimentar e surtos de doenças transmissíveis.
Relatos de ataques direcionados a comunidades e execuções sumárias foram documentados e pesquisadores da ONU apontaram características que, em alguns casos, se aproximam de crimes de violência étnica em áreas específicas. As estatísticas oficiais registradas pelo Ministério da Saúde apontam mais de 11.209 mortes documentadas em diferentes estados, mas analistas citam um número muito maior quando se considera o excesso de mortalidade.
O apelo humanitário das Nações Unidas para 2026 está insuficientemente financiado e a retração de doadores comprometidos e a priorização de canais bilaterais reduziram os recursos disponíveis para operações essenciais. Agências relataram corte de serviços e iniciativas locais tentaram preencher lacunas com cozinhas comunitárias e centros de resposta, embora muitas tenham sido forçadas a encerrar atividades por falta de apoio.
Várias tentativas de mediação foram promovidas por países da região e por coligações externas, mas divergências de interesses e as mudanças constantes no equilíbrio de poder limitaram progressos duradouros. Sem um cessar-fogo abrangente e verificável, o conflito tende a persistir e o futuro político do Sudão dependerá de negociações que conciliem segurança, composição institucional e a restauração de serviços básicos.