Cidades

Penas de João de Deus caem de quase 480 para 214 anos

Líder religioso segue em prisão domiciliar enquanto maioria dos processos ainda não teve desfecho definitivo

As condenações impostas a João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, por crimes sexuais chegaram a somar quase 480 anos de prisão em primeira instância, segundo levantamento feito pelo g1 com base em dados do Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO). Passados mais de sete anos desde a primeira denúncia, esse total foi reduzido para menos da metade após o julgamento de recursos apresentados pela defesa. Entre os crimes pelos quais ele foi condenado estão estupro, estupro de vulnerável e violação sexual mediante fraude.

De acordo com o levantamento, João de Deus respondeu a 16 denúncias ligadas a crimes sexuais, além de outros dois processos: um por posse irregular de arma de fogo e outro relacionado a relações de consumo, este último arquivado. Inicialmente, as condenações somavam quase 500 anos de prisão. Hoje, apenas no conjunto dos crimes sexuais, as penas totalizam 211 anos e 1 mês. Se incluída a condenação por posse irregular de arma, o total chega, em maio de 2026, a 214 anos, 1 mês e 20 dias de reclusão, além de 1 ano de detenção.

A defesa de João de Deus informou ao g1 que ele continua preso preventivamente desde dezembro de 2018, embora a prisão tenha sido posteriormente convertida em domiciliar. Desde 2021, o ex-líder religioso cumpre a medida em Anápolis, a cerca de 55 quilômetros de Goiânia, sob restrições impostas pela Justiça. Entre elas, está a proibição de se aproximar de Abadiânia, cidade onde construiu sua trajetória pública, e também de manter qualquer contato com as vítimas.

João de Deus ganhou projeção nacional e internacional ao se apresentar como médium e realizar chamadas cirurgias espirituais na Casa Dom Inácio de Loyola, fundada por ele em Abadiânia. O cenário mudou radicalmente em 2018, quando a cidade, que tem cerca de 17 mil habitantes, se viu no centro de uma onda de denúncias. Naquele momento, cerca de dez mulheres deram início a uma sequência de acusações, relatando abusos sexuais durante atendimentos realizados sob a cobertura da fé e da busca por cura espiritual.

Com o avanço das investigações e dos processos judiciais, o número de vítimas vinculadas aos casos se ampliou. Ao todo, 67 vítimas integram formalmente os processos. Em relação a outras 121 mulheres, houve reconhecimento de extinção da punibilidade por decadência ou prescrição, razão pela qual entraram nos autos apenas como informantes. Ainda assim, os relatos ajudaram a dimensionar a extensão das acusações e o impacto provocado pelas denúncias na estrutura montada ao redor do líder religioso durante décadas.

Uma das promotoras envolvidas no caso afirmou que o Ministério Público buscou todas as medidas possíveis para que João de Deus cumprisse pena em unidade prisional, mas não obteve êxito. Segundo ela, diante da impossibilidade, o foco passou a ser a adoção de mecanismos de proteção para impedir eventual contato com potenciais vítimas. A concessão da prisão domiciliar, em razão da idade, alimentou entre vítimas e familiares uma sensação de frustração e indignação em relação à resposta do sistema de Justiça.

Embora as penas já fixadas sejam elevadas, o desfecho judicial ainda não está completamente encerrado. Com exceção dos processos arquivados e da condenação definitiva pelo crime de posse ilegal de arma, a maior parte das ações ainda depende de análise de Recurso Especial. Esses recursos aguardam julgamento no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o que significa que o total das penas ainda pode ser mantido, reduzido ou eventualmente alterado conforme o andamento processual.

O caso João de Deus permanece como um dos mais emblemáticos da história recente do Judiciário goiano e brasileiro, tanto pelo volume de denúncias quanto pelo contraste entre a imagem pública construída ao longo dos anos e a gravidade das acusações reconhecidas pela Justiça. A redução das penas após os recursos não elimina o peso das condenações já impostas, mas reforça que o processo segue em aberto e ainda depende de instâncias superiores para definição mais estável sobre o alcance final das punições.

Redação GOYAZ

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