Sites gerados por IA imitam veículos de imprensa e lucram com publicidade digital
Sites gerados por IA imitam veículos de imprensa e lucram com publicidade digital

Uma investigação conduzida na França revelou a existência de mais de 15 mil sites falsos produzidos com inteligência artificial, muitos deles apresentados ao público como se fossem veículos legítimos de imprensa. As páginas publicam notícias automáticas, reescrevem conteúdos de terceiros e chegam a atribuir os textos a jornalistas que sequer existem. O objetivo principal, porém, nem sempre é espalhar desinformação política ou ideológica. Em grande parte dos casos, trata-se de uma operação comercial criada para capturar tráfego, aparecer em mecanismos de recomendação e lucrar com publicidade digital.
O levantamento foi realizado pelo jornalista investigativo francês Jean-Marc Manach para o site Next.ink. Embora a maior parte dos domínios identificados publique conteúdo em francês, a pesquisa também localizou aproximadamente 1.500 sites em inglês e 200 em alemão, além de páginas em outros idiomas. O número mostra que o fenômeno ultrapassa fronteiras nacionais e já se apresenta como um problema estrutural para o ecossistema internacional de informação.
Esses sites utilizam ferramentas de inteligência artificial para produzir grandes volumes de conteúdo em poucos minutos. Notícias publicadas por veículos tradicionais são copiadas, resumidas, reorganizadas ou reescritas automaticamente. Em seguida, recebem títulos otimizados para mecanismos de busca, imagens genéricas e nomes fictícios de autores. Dessa maneira, os operadores conseguem manter dezenas ou centenas de páginas atualizadas sem precisar contratar redações, repórteres, fotógrafos ou editores.
A pesquisa indica que muitos desses projetos são administrados por profissionais especializados em SEO, conjunto de técnicas utilizado para posicionar páginas em mecanismos de busca. A estratégia não depende necessariamente da qualidade ou da originalidade do conteúdo. O foco está em compreender quais temas apresentam maior potencial de audiência e produzir rapidamente uma grande quantidade de textos capazes de aparecer no Google Discover, no Google News, no MSN e em outros sistemas de recomendação.
Os dados revelam uma forte concentração desse mercado. Cerca de 75% dos sites falsos identificados são controlados por menos de 300 operadores, geralmente empreendedores individuais ou pequenas empresas. Aproximadamente cem administradores comandam redes com mais de 20 domínios cada, enquanto alguns chegaram a reunir centenas ou até milhares de sites sob sua responsabilidade.
A escala das operações pode produzir ganhos expressivos. A investigação identificou dois editores que teriam faturado mais de US$ 2 milhões, cerca de R$ 10 milhões, em apenas três meses. A receita foi obtida principalmente por meio de anúncios exibidos nas páginas e pelo grande volume de visitas direcionadas pelos algoritmos de recomendação.
Um dos casos mais extremos envolveu um suposto autor que aparecia como responsável por aproximadamente 500 textos publicados diariamente. Muitas dessas matérias eram versões quase idênticas de uma mesma notícia, produzidas em sequência para ampliar as chances de alguma delas ser recomendada pelas plataformas. Esse ritmo seria impossível para um jornalista humano e evidencia a utilização de processos automatizados em escala industrial.
O problema também alcança empresas de mídia tradicionais. Pressionadas pela queda de receitas e por cortes nas equipes, algumas organizações passaram a recorrer à inteligência artificial para aumentar a produção de conteúdo. Em determinados casos, textos gerados automaticamente foram publicados com assinaturas de autores inexistentes, reproduzindo práticas semelhantes às utilizadas por redes de sites falsos.
Para o jornalismo profissional, a competição é profundamente desigual. Veículos comprometidos com o interesse público precisam investir em equipes, apuração, checagem, documentação, cobertura local e responsabilidade jurídica. Já os sites automáticos conseguem produzir milhares de páginas com custos mínimos, reaproveitando informações já publicadas e explorando a estrutura das plataformas digitais para capturar audiência. Samira Castro, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, classificou essa concorrência como desleal.
A influência dessas redes sobre os sistemas de recomendação chama atenção. Em determinado momento do levantamento, 20% dos mil sites mais bem posicionados no Google Discover eram alimentados por inteligência artificial. No Google News, páginas desse tipo representavam aproximadamente um terço dos 120 principais sites de tecnologia analisados.
O alcance junto à população também cresceu rapidamente. Dados da empresa francesa Médiamétrie mostraram que, em dezembro, quando a investigação havia identificado cerca de 250 dessas páginas, os sites já alcançavam um quarto da população francesa. Três meses depois, a proporção teria subido para 40% dos habitantes do país.
Os números são significativamente superiores aos registrados pela NewsGuard, empresa norte-americana especializada em avaliar a confiabilidade de páginas de notícias. Desde 2023, o monitoramento global da organização havia identificado 3.749 sites desse tipo em 16 idiomas. A diferença demonstra como o problema pode estar sendo subestimado por levantamentos que dependem de métodos mais restritos.
A equipe francesa decidiu não utilizar detectores automáticos de textos produzidos por inteligência artificial, por considerar essas ferramentas pouco confiáveis. Em vez disso, os investigadores recorreram a técnicas de pesquisa digital e fontes abertas. Entre os indícios analisados estavam o volume de publicações atribuído a um mesmo autor, a velocidade de produção, a existência real dos jornalistas, os responsáveis legais pelos domínios e as conexões entre diferentes sites administrados por um mesmo proprietário.
A lista completa das páginas identificadas não foi divulgada publicamente. Os responsáveis pela investigação temem que os operadores utilizem essas informações para alterar suas estratégias e escapar dos mecanismos de detecção. Como alternativa, os domínios foram incorporados a uma extensão gratuita para Google Chrome, Microsoft Edge e Mozilla Firefox, capaz de alertar o usuário ao acessar um site reconhecido pela investigação como conteúdo automatizado e potencialmente enganoso.
O caso reforça a necessidade de maior transparência por parte das plataformas digitais e das empresas de inteligência artificial. Entre as medidas defendidas estão a identificação de conteúdos gerados artificialmente, mecanismos capazes de rastrear a origem das informações e regras de responsabilização econômica para plataformas que lucram com conteúdos produzidos a partir do trabalho jornalístico.
Mais do que produzir textos falsos, essas redes aprenderam a explorar as fragilidades do ambiente digital. Ao transformar notícias em matéria-prima para páginas automáticas, os operadores conseguem ocupar espaços nos mecanismos de recomendação, competir com redações profissionais e lucrar sem investir em apuração. A inteligência artificial não criou sozinha esse modelo, mas tornou possível ampliá-lo em uma velocidade e escala que desafiam plataformas, governos, jornalistas e leitores.